A dez dias do segundo turno, as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Bolsonaro fazem movimentos calculados para ampliar apelo popular e reduzir vulnerabilidades. O bolsonarista passou a admitir apoio à ideia de eliminar a escala 6x1, associada a ganhos para trabalhadores, enquanto no entorno do presidente a palavra de ordem é não fechar a porta à discussão sobre a redução da maioridade penal.

Na retaguarda de Flávio, interlocutores ouvidos pelo Correio avaliam que a manutenção de uma posição rígida contra a mudança da jornada poderia afastar eleitores beneficiados pela medida. Para evitar que o tema vire moeda exclusivamente do rival, o candidato do PL anunciou no dia 14 de outubro que votaria a favor da proposta no Senado, sinalizando uma convergência pragmática que busca minimizar desgaste político na reta final.

No campo petista, assessores dizem que uma resistência categórica contra discutir maioridade penal poderia abrir espaço para que a candidatura no campo conservador capitalizasse o sentimento pela segurança pública. Há, porém, divergências internas: parte da base prefere tratar o tema de forma separada, fora da tramitação da PEC da Segurança Pública, para não comprometer a aprovação de medidas consideradas prioritárias pelo governo. Em sabatina à TV Globo, na quinta-feira (15), o presidente afirmou ser favorável à redução para 16 anos, mas condicionou a discussão ao momento e ao mecanismo legislativo apropriado.

O ajuste simultâneo nas duas pontas revela uma estratégia eleitoral de neutralização: cada lado procura esvaziar o tema preferido do adversário e disputar diretamente eleitores sensíveis a segurança e direitos trabalhistas. Politicamente, o movimento reduz margem para que uma das campanhas monopolize narrativas de apelo popular, mas também expõe risco de tensão interna e perda de coerência programática. É uma fotografia da retaguarda de campanha — indicativa de reação, não de definição do resultado.