Um levantamento do Instituto Meio/Ideia divulgado neste ano mostra que 12,5% dos entrevistados afirmaram acreditar que Luiz Inácio Lula da Silva foi substituído por um clone ou sósia. O número — cerca de uma em cada oito pessoas — acende alerta sobre a penetração de narrativas conspiratórias no Brasil e seu potencial efeito político.
As origens da teoria remontam aos dias que sucederam a eleição de 2022: postagens nas redes, um tuíte em 9 de novembro daquele ano e vídeos da transição em que o vice aparece sem Lula serviram de material para quem buscava sustentar a hipótese de um "sumiço". Reportagens registraram que o presidente havia viajado à Bahia com a primeira-dama para descanso, mas isso não impediu que dúvidas e versões alternativas se instalassem.
Canais com grande alcance ajudaram a reciclar e ampliar a história. A BBC News Brasil identificou ao menos oito vídeos no Receitas do Noca relacionados ao tema; o canal, que soma mais de 2,3 milhões de inscritos, publicou material em 2024 com dezenas e centenas de milhares de visualizações, incluindo áudios e comparações visuais que pretendem apontar diferenças de aparência e comportamento. O padrão é o mesmo: atribuir suspeitas a terceiros, acrescentar 'indícios' e transformar cada novo conteúdo em prova.
Além do impacto imediato sobre reputação e confiança nas instituições, a difusão dessa desinformação tem efeitos políticos concretos: corrói o debate público, alimenta polarização e pressiona mecanismos de verificação e comunicação do Estado. A repetição em larga escala demonstra como fórmulas simples — ausência, dúvida, 'novos áudios' — continuam a produzir adesão, exigindo respostas mais firmes de plataformas, imprensa e autoridades para preservar o mínimo de veracidade do debate público.