Há meio século, a explosão que atingiu o sétimo andar da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em 19 de agosto de 1976, não foi um ato isolado ou meramente simbólico. Ao mirar um edifício icônico — o Edifício Herbert Moses, no centro do Rio —, a ação buscou mais do que dano material: procurou intimidar um núcleo de liberdade de expressão e um espaço de articulação da sociedade civil que vinha questionando a repressão e a censura do regime militar.
Os artefatos deixados na ABI e na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) naquele dia, este último com explosivo que falhou por imperfeição técnica, explicitam a estratégia adotada por setores da linha-dura: usar o terror para atribuir violência à esquerda, sufocar dissenso e condicionar a transição política. Era a face violenta de uma 'abertura' que, nas palavras oficiais de Ernesto Geisel, seria 'lenta, gradual e segura' — mas que, na prática, conviveu com operações clandestinas de intimidação e agressão.
Documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), reunidos posteriormente, mostram que a ABI não era apenas alvo por emitir opiniões inconvenientes, mas porque representava um ponto de encontro para denúncias contra a censura e defesa de direitos humanos. As reações públicas às mortes de Vladimir Herzog e de Manoel Fiel Filho no biênio anterior haviam ampliado a crise de legitimidade do regime; mesmo assim, setores radicais recorreram a atentados como forma de resposta, ampliando o risco para jornalistas, advogados, sindicalistas e livreiros.
A sequência de ataques não se restringiu a 1976. Relatórios da Comissão Nacional da Verdade registram dezenas de atentados no fim da década de 1970 e início dos anos 1980 — a CNV cita 40 atentados entre janeiro de 1980 e abril de 1981, e levantamentos acadêmicos estimam números ainda maiores no conjunto daquele período. Em 27 de agosto de 1980, uma carta-bomba na sede da OAB matou a secretária Lyda Monteiro da Silva; outros episódios feriram parlamentares e agentes da vida pública. Esses números confirmam que não se tratou de erros isolados, mas de uma estratégia de intimidação.
A história daqueles atentados mostra uma contradição política explícita: enquanto a Presidência prometia distensão controlada, a máquina repressiva mantinha instrumentos para punir e amedrontar opositores. A perspectiva que permanece é a de que a violência foi usada para condicionar o ritmo da abertura e para tentar preservar privilégios autoritários. A memória do ataque à ABI, hoje, não é apenas lembrança arquitetônica ou cultural; é alerta sobre como o arbítrio busca silenciar instituições críticas — e sobre a importância de resgatar os arquivos e responsabilizar os autores para consolidar a democracia.