O cientista político Jairo Nicolau, da Fundação Getúlio Vargas, projeta que a abstenção e os votos em branco e nulos podem crescer neste pleito e atingir níveis inéditos nas últimas décadas. Nicolau lembra o recorde do primeiro turno de 2022 — quando cerca de 32 milhões não votaram — e avalia que a combinação de uma campanha marcada pela repetição da polarização, o pouco espaço para debate programático e a crise que tomou as últimas semanas no Supremo Tribunal Federal deixou o eleitorado desanimado. Em seu livro O país dividido, o autor dedica análise à evolução do comparecimento e à mudança do perfil do eleitor brasileiro.
O diagnóstico associa causas estruturais e conjunturais. Entre os fatores citados estão o envelhecimento do eleitorado (pessoas com mais de 70 anos já não são obrigadas a votar), a mobilidade populacional e a dificuldade prática de transferir domicílio eleitoral, além de problemas no dia da votação. Há também uma parcela de abstenção com caráter deliberado: eleitores que decidem não participar por descrédito nos candidatos. Nicolau destaca ainda que o custo de não votar caiu, com mecanismos que tornam mais fácil justificar ausência, o que, na prática, tende a aproximar o Brasil de um voto parcialmente facultativo.
As consequências políticas são concretas e imediatas. Uma alta de abstenção e de votos inválidos reduz a margem de manobra de candidatos que dependem de base ampla e estável, pressiona a legitimidade eleitoral e exige mudanças de estratégia de campanha — da ênfase em conflito simbólico para ações de mobilização real. A desigualdade na distribuição da abstenção também altera o mapa eleitoral: maior comparecimento feminino favorece determinados nomes; menor participação de eleitores de baixa escolaridade pode prejudicar outros. Em cenário de baixa participação, vence quem melhor converter eleitores e operar logística de comparecimento.
O alerta não é previsório, mas sinaliza risco político. Para candidatos e governo, o desafio é recuperar espaço de debate e traduzir propostas em apelo prático que leve o eleitor a ir às urnas. Para o sistema político, um crescimento expressivo de abstenções e votos nulos levanta perguntas sobre representação e mecanismos de engajamento. À medida que a campanha avança, os números funcionam como termômetro: não decidem o resultado, mas obrigam a ajustar narrativas e prioridades — e mostram, de forma inequívoca, que a disputa de 2026 corre risco de ser definida mais pela capacidade de mobilização do que por uma ampliação do convencimento programático.