O ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto (União Brasil), alterou a autodeclaração racial no registro de candidatura apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral: agora consta como branco. Quatro anos atrás, na disputa de 2022 pelo Palácio de Ondina, ele havia se registrado como pardo, atitude que gerou forte repercussão pública e acusações de oportunismo relacionadas às regras de distribuição de recursos do fundo eleitoral.
A autodeclaração é, por definição, pessoal e pode variar a cada eleição, mas a reversão confirma uma contradição com potencial político. Em 2022, a opção por se declarar pardo foi duramente questionada na Bahia, estado onde cerca de 80% da população se identifica como preta ou parda (IBGE). Na ocasião, Neto defendeu que a escolha refletia sua identidade e lembrou ter usado a mesma classificação em pleitos municipais anteriores.
A volta à declaração como branco reaparece num contexto sensível: pesquisas recentes, como a Genial/Quaest, mostram uma disputa equilibrada entre ACM Neto (39%) e o governador petista Jerônimo Rodrigues (38%). Em um ambiente eleitoral tão competitivo, mudanças percebidas como inconsistências ou estratégias oportunistas podem ser exploradas por adversários e repercutir junto a eleitores sensíveis à representação racial e à coerência pública.
Além da autodeclaração, o registro entregue ao TSE expõe um aumento expressivo do patrimônio declarado: R$ 84 milhões, ante R$ 41,7 milhões em 2022, incluindo imóveis, participações societárias e investimentos. Esse salto patrimonial traz outro foco de atenção — não inventário de irregularidade, mas um tema que pode virar questão pública sobre transparência e origem dos recursos, especialmente em campanha competitiva.
Do ponto de vista jurídico, a Justiça Eleitoral não faz heteroidentificação automática: cabe ao candidato declarar sua raça, e eventual contestação depende de provocação do Ministério Público, que pode investigar e, se entender haver falsidade, imputar crime previsto no artigo 350 do Código Eleitoral. A campanha foi procurada e não havia se manifestado até o fechamento desta matéria. Politicamente, a mudança reabre desgaste e expõe uma contradição que, num cenário apertado, acende um sinal de alerta para a candidatura.