A escolha de Alfredo Gaspar para compor a chapa de Flávio Bolsonaro surge como movimento tático: oferecer ao eleitor de direita um nome associado à investigação do INSS e, simultaneamente, tentar empurrar para o centro do debate a investigação sobre Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha). Analistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliaram que a indicação busca explorar o desgaste gerado pela CPMI do INSS, cujas revelações e pedidos de indiciamento — mais de 200, segundo o relatório final — tiveram grande repercussão. Em particular, o relatório que Gaspar relatou chegou a pedir prisão preventiva de Lulinha, e o uso desse repertório é um recurso óbvio para personalizar a campanha contra o entorno do presidente Lula.

Mas a jogada tem custo político e jurídico imediato. Gaspar foi alvo, no contexto da própria CPMI, de uma representação por suposto estupro contra menor, encaminhada à Procuradoria-Geral da República e atualmente em fase preliminar de apuração pela Polícia Federal. O deputado nega as acusações e não há, até agora, provas públicas que sustentem uma condenação, mas a mera existência de investigação abre espaço para desgaste midiático e para que adversários tematizem fragilidade ética na chapa. Em campanha, vulnerabilidades jurídicas costumam ser exploradas com ritmo e intensidade muito superiores ao que processos formais seguem na Justiça — isso define parte do risco político da indicação.

No plano local, a saída de Gaspar como candidato ao Senado redesenha a disputa em Alagoas. Ele figurava como potencial concorrente pela direita, o que tensionava a vaga pleiteada por Arthur Lira (PP) e a reeleição de Renan Calheiros (MDB). Com Gaspar na vice, Lira ganha fôlego para consolidar o eleitorado conservador estadual; aliados interpretam a movimentação como uma transferência de campo de batalha, onde o PL abre mão de uma candidatura forte ao Senado em favor da construção nacional da chapa. A consequência é dupla: enfraquece o fogo cruzado à direita e facilita a trajetória de Lira no estado, ao mesmo tempo em que reduz a capacidade da campanha de Flávio de ampliar apoios entre partidos maiores que preferiram neutralidade.

O resultado político é ambivalente para a candidatura de Flávio. Por um lado, a escolha reafirma a estratégia de confrontação com o governo Lula, capitalizando episódios que mantêm Lulinha no noticiário — inclusive após a abertura de três inquéritos autorizados pelo Supremo contra ele. Por outro, expõe a coligação a temas que podem repelir eleitorado moderado e feminino, justamente o público que nomes como Tereza Cristina e Daniella Marques buscavam atrair. Além disso, sinaliza o pragmatismo do Centrão: estar competitivo para a eleição ao Congresso prevaleceu sobre a aposta em uma chapa presidencial mais palatável. Em campanha, a equipe de Flávio terá que equilibrar ofensiva jurídica e narrativa política sem permitir que as vulnerabilidades de Gaspar desviem a atenção do projeto principal — tarefa que, historicamente, consome recursos e reduz margem de erro em um pleito polarizado.