A escolha de Alfredo Gaspar para compor a chapa de Flávio Bolsonaro surpreendeu parte do eleitorado e do próprio mercado político. Nomeado após decisão do comando do PL, o procurador e deputado federal ganhou visibilidade no Congresso nas últimas temporadas — e sua indicação revela uma diferença entre o discurso público de tolerância zero a criminosos e a prática de alinhamentos políticos regionais.
A trajetória de Gaspar combina carreira no Ministério Público de Alagoas, comando em grupos de combate a organizações criminosas e vínculos familiares com figuras históricas do poder local. Seu pai trabalhou com a família Collor e, pelo casamento, ele se conectou à descendência de um ex-governador do estado. Esses laços ajudaram a construir uma base política que o colocou à frente de pesquisas locais, inclusive em disputa contra nomes como Renan Calheiros.
No campo profissional, Gaspar atuou em investigações e provocou processos contra autoridades estaduais, mas nem todas as ações resultaram em condenações ou prisões imediatas — em alguns casos, investigações foram retomadas ou arquivadas em momentos diferentes da dinâmica política. Na Câmara, ganhou destaque ao assumir a relatoria da CPMI do INSS, o que ampliou sua visibilidade e a percepção de protagonismo legislativo.
Ao mesmo tempo, o material que acompanha sua filiação ao PL inclui acusações e apurações em curso, citadas durante a cobertura jornalística. A combinação de suspeitas em investigação e os laços com famílias políticas tradicionais gera potencial combustível para adversários explorarem contradições entre o discurso anticorrupção da chapa e a prática de acomodação política.
Politicamente, a escolha de Gaspar tem efeitos concretos: fortalece a capilaridade regional do projeto eleitoral, mas também amplia desgaste e oferece pontos de ataque que podem complicar a narrativa governista. A alternativa teria sido tentar um nome com perfil menos ligado às oligarquias locais; a opção por Gaspar mostra que pesou mais a articulação interna do partido do que o cálculo de imagem. Resta saber se a campanha conseguirá transformar essa ligação em vantagem sem que ela gere custo político relevante nos meses que vêm.