A explicação oferecida por um dos aliados mais próximos de Flávio Bolsonaro para as diferenças que circularam na carta divulgada na quarta-feira foi a tecnologia. Paulo Figueiredo afirmou nas redes sociais que o uso do ChatGPT teria inserido, por engano, um brasão antigo da República e um trecho em que o senador se apresentava como “presidente eleito”. Segundo ele, a peça passou por várias revisões e a versão equivocada teria sido gerada durante o processo de edição com auxílio da ferramenta de inteligência artificial.
De acordo com o relato do aliado, Eduardo Bolsonaro chegou a pedir que o brasão fosse inserido pelo ChatGPT, mas a ferramenta acabou recuperando uma versão anterior do documento que trazia a expressão autoproclamatória. Ainda segundo Figueiredo, as inconsistências foram percebidas pouco depois e corrigidas: o brasão foi substituído e o termo “presidente eleito” foi alterado para “verdadeiro líder”. Flávio teria publicado pessoalmente a versão retificada para conter a circulação de versões discordantes.
A explicação técnica busca reduzir o episódio a um problema de edição, mas a ocorrência tem implicações políticas concretas. Primeiro, expõe a fragilidade do controle sobre materiais oficiais quando há dependência de recursos automatizados e de múltiplos contribuintes; segundo, alimenta especulações internas e externas sobre coordenação e disciplina no núcleo político do senador. A substituição terminológica, além disso, indica intenção de enviar uma mensagem clara ao próprio campo político: manter a liderança de Flávio na movimentação, mesma sem a afirmação explícita de posse do cargo.
Há ainda uma dimensão institucional e informativa: a circulação de versões diferentes facilita a proliferação de narrativas e teorias, e torna mais difícil separar erro técnico de estratégia deliberada. Figueiredo rejeitou interpretações conspiratórias e atribuiu a repercussão excessiva a um comportamento da imprensa; o episódio, no entanto, deixa marca prática sobre credibilidade e sobre o uso de IA em comunicação política — um tema que tende a ganhar mais atenção enquanto ferramentas automatizadas seguirem incorporadas aos fluxos de produção de conteúdo.