A tentativa de incorporar a proposta econômica associada a Javier Milei à campanha de Flávio Bolsonaro provocou desconforto entre aliados que compõem o arco de apoio do senador. Fontes do próprio Centrão avaliam que o chamado 'método Milei' — defendido por integrantes da equipe econômica da campanha — não se traduz automaticamente em vantagem eleitoral no Brasil e pode, ao contrário, gerar ruídos que complicam a narrativa oficial.

A coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, e nomes como o ex-ministro Adolfo Sachsida têm apresentado uma agenda explícita de desregulamentação, desburocratização e redução de impostos. O plano de governo do candidato já prevê cortes de ministérios, redução de cargos comissionados e a revisão de normas, e a campanha diz ter mapeado mais de mil medidas passíveis de revogação. Esse diagnóstico técnico, porém, topa com um dilema político: reformas radicais podem agradar a parcela liberal do eleitorado, mas assustar setores do Centrão e do eleitorado tradicional que priorizam estabilidade e políticas públicas consolidadas.

A crítica interna não é ideológica apenas; tem base em cálculo pragmático. Fontes próximas à campanha lembram que Brasil e Argentina partem de condições econômicas, sociais e institucionais distintas, e que a adoção acrítica de um modelo estrangeiro pode transformar uma mensagem de eficiência em símbolo de ruptura temerária. Em eleições, simbolismos importam: associar-se de forma explícita a um líder visto como extremista na cena regional pode ampliar desgaste e fornecer munição à oposição em debates sobre risco e radicalismo.

Há também um custo operacional. Revogar normas e reduzir a máquina pública em escala exige desenho técnico, cronograma de mitigação e articulação com o Congresso — especialmente numa base heterogênea como a que sustenta Flávio. Sem essa construção política detalhada, a promessa de 'menos Estado' corre o risco de ser percebida como discurso superficial, vulnerável a contestações sobre impactos em serviços públicos, empregos e arrecadação. Em resumo: a proposta empurra o candidato a escolher entre demonstrar convicção reformista ou ceder ao pragmatismo que o Centrão exige.

O quadro que emerge é de risco e oportunidade simultâneos. A defesa de uma agenda liberal pode consolidar apoio entre eleitores que priorizam responsabilidade fiscal e economia de mercado, mas também acende alerta entre aliados que temem perda de adesão em setores mais moderados. Para a campanha, a prioridade será transformar medidas técnicas em roteiro político crível — ou ajustar o discurso para evitar que a aproximação com Milei amplie desgaste justamente quando a corrida presidencial exige equilíbrio entre atração de base e construção de maioria.