Em viagem a Moscou para participar do Fórum Internacional de Segurança, o assessor especial da Presidência, embaixador Celso Amorim, reforçou a posição do governo brasileiro contra a equiparação automática entre organizações de narcotráfico e grupos terroristas. Segundo Amorim, a cooperação internacional em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas é necessária, mas não pode servir de justificativa para violar a soberania nacional ou abrir espaço a intervenções externas.

A declaração surge após movimentações internacionais que qualificaram facções criminosas como organizações terroristas. O governo federal tem tratado essa agenda com cautela: reconhecer a gravidade do crime organizado sem aceitar rótulos que, na avaliação de Brasília, podem ser usados por potências estrangeiras para ampliar sua influência ou intervir em assuntos internos. Especialistas ouvidos pelo governo apontam precedentes em que classificações semelhantes foram invocadas para pressionar regimes como os de Cuba e Venezuela, ampliando o debate sobre limites e consequências políticas dessas definições.

Do ponto de vista prático, a posição de Amorim tenta conciliar duas necessidades conflituosas: manter ativos os canais de cooperação policial e financeira com parceiros internacionais — em especial no combate à lavagem de dinheiro e tráfico de armas — e, ao mesmo tempo, preservar o princípio da não intervenção. A linha do Itamaraty coloca em xeque abordagens que tratem o narcotráfico apenas sob o viés militar ou antiterror, defendendo políticas públicas que considerem motivações, estruturas e respostas apropriadas ao problema.

Politicamente, o discurso também tem efeito doméstico e externo: acende um alerta sobre os riscos de escalada diplomática e amplia desgaste na relação com países que adotem rotulações amplas. Para o governo, o desafio é então equilibrar a necessidade de resultados concretos no combate ao crime organizado — exigência cada vez maior da sociedade — sem ceder a narrativas que possam comprometer a autonomia do Estado brasileiro ou criar justificativas para intervenções que tenham custos institucionais e sociais.