O ato do PL realizado na Maraponga, em Fortaleza, deixou clara a escolha do núcleo cearense em torno de Flávio Bolsonaro como representante do capital político de Jair Bolsonaro. Em discurso para apoiadores, André Fernandes fez questão de marcar território: defendeu a unidade em torno da pré-candidatura presidencial do senador e ratificou publicamente que a vaga ao Senado no estado será disputada pelo seu pai, Alcides Fernandes. O tom foi de mensagem clara a facções internas.

A cena ganhou contornos de racha ao evidenciar o afastamento entre parte do diretório estadual e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Nas últimas semanas, Michelle questionou a condução local das articulações — em especial a aproximação do PL com o ex-ministro Ciro Gomes e a escolha da postulante ao Senado — e chegou a defender Priscila Costa, aliada próxima e cabo eleitoral de sua base. A reação de André, que chefiou as negociações em favor de Alcides, expõe uma divisão com custo político concreto para o partido no Ceará.

Mais do que disputa local, a manifestação em Fortaleza tem implicações nacionais. Ao empurrar Flávio para a linha de sucessão política de Jair Bolsonaro e descartar outras ambições internas, o grupo tenta concentrar o capital simbólico numa candidatura única. Mas a maneira incisiva de tratar dissensos — com declarações que dispensam negociação pública — pode corroer alianças regionais, afastar lideranças do PL Mulher e reduzir margem de reagrupamento necessário para 2026, se o objetivo for ampliar palanque e capilaridade.

O episódio deixa o PL cearense diante de um dilema operacional: seguir a lógica de coesão em torno de nomes da família Bolsonaro, privilegiando disciplina interna, ou reabrir espaço para acomodar lideranças locais e evitar desgaste eleitoral. A aposta em Flávio e na candidatura de Alcides é clara; o desafio será transformar esse alinhamento público em construção política eficiente sem ampliar a fragmentação que Michelle já vinha sinalizando.