No Dia do Jornalista, a combinação entre violência nas ruas e uma onda digital de hostilidade acende um sinal de alerta para 2026. Levantamento da Abert identificou 66 episódios de violência não letal contra profissionais e meios em 2025, que envolveram ao menos 80 jornalistas. Embora o total seja menor que o ano anterior, a frequência — um episódio a cada cinco dias — mantém o problema em patamar preocupante.

A violência física voltou a liderar as ocorrências, concentrando 39% dos casos, com 26 episódios e crescimento no número de vítimas. A Região Sudeste concentrou a maior parte dos ataques, seguida por Centro‑Oeste e Nordeste. Chama atenção o perfil dos agressores: políticos e ocupantes de cargos públicos aparecem como protagonistas, o que transforma agressões contra a imprensa em questão de relevância institucional, e não apenas de segurança individual.

A inteligência artificial eleva o risco de campanhas coordenadas de desacreditação contra a imprensa.

No ambiente digital, o quadro é ainda mais amplo. Estudo da Bites registrou cerca de 900 mil ataques à imprensa ao longo de 2025, uma média próxima de 2,5 mil hostilidades por dia. Termos depreciativos como “lixo” e “golpista” voltaram a circular em larga escala, alimentando um clima de descrédito que acompanha decisões jurídicas e episódios políticos recentes.

Emerge aí um novo vetor: a inteligência artificial. Plataformas de grande uso público passaram a integrar táticas de manipulação, seja para organizar campanhas massivas de descrédito, seja para alterar ou modular falas de profissionais. Esse fenômeno torna mais difícil distinguir ataque político de conteúdo manipulado e amplia o custo democrático de um ambiente já polarizado em ano eleitoral.

O retrato que se impõe é de risco para a liberdade de expressão e para a credibilidade da informação — com efeitos diretos sobre o debate público e a segurança dos profissionais. A presença de agentes públicos entre os agressores e a escalada tecnológica exigem respostas das instituições: proteção a jornalistas, fiscalização das plataformas e mecanismos de verificação que preservem o pluralismo sem cercear o trabalho jornalístico.

Ferramentas de modulação de voz permitem alterar falas de jornalistas e distorcer o contexto de matérias.