A Polícia Federal deve incluir no inquérito da Operação Compliance Zero um áudio de cerca de um minuto e meio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pede milhões ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A conversa, divulgada pelo portal Intercept Brasil, teria ocorrido em novembro do ano passado, um dia antes da prisão de Vorcaro, detido ao tentar deixar o país no âmbito da investigação que apura esquema de pagamento de propina, lavagem de dinheiro e lobby em setores político e econômico.

No diálogo, Flávio se dirige a Vorcaro em tom próximo e reclama atrasos nas parcelas destinadas à finalização do projeto cinematográfico; o executivo responde que vai providenciar os pagamentos. Segundo apuração do Correio, pelo menos R$ 61 milhões teriam saído entre fevereiro e maio por meio de seis operações, envolvendo transferências da Entre Investimentos e Participações para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e vinculado a aliados do deputado cassado Eduardo Bolsonaro. Fontes da PF ouvidas pelo jornal dizem que o áudio deverá entrar nas diligências desta semana e que os investigadores avaliam pedir quebra de sigilo e busca em endereços ligados ao senador.

Flávio Bolsonaro já reconheceu ter recebido recursos de Vorcaro, mas negou irregularidades, afirmando que se tratou de patrocínio privado para um filme privado, sem uso de dinheiro público nem benefício via Lei Rouanet. O senador destacou ainda que teria conhecido o empresário em dezembro de 2024 e retomado o contato por causa de atrasos nos pagamentos. A narrativa oficial, porém, encara agora risco de desgaste: a existência de gravação em que o pré-candidato cobra diretamente o principal investigado da operação cria espaço para perguntas sobre proximidade, incentivos e eventual contrapartida.

Politicamente, a inclusão do áudio na apuração acende alerta sobre a capacidade do entorno de Flávio em segurar uma agenda de campanha sem ser consumida por questões judiciais. O vínculo financeiro com Vorcaro e a movimentação de recursos por estruturas ligadas a aliados de Eduardo Bolsonaro complicam a comunicação eleitoral e podem ampliar pressão por esclarecimentos formais, inclusive por parte de adversários e da mídia. Para a PF, a gravação é uma peça que pode levar à quebras de sigilo, buscas e cruzamento de transferências — medidas que, se autorizadas, intensificariam o escrutínio sobre a origem, o destino e o propósito dos recursos.

Além do impacto imediato na pré-campanha, o episódio põe em evidência um nó institucional: o argumento de patrocínio privado precisa ser atrelado a documentação clara sobre contratos, caminhos financeiros e a separação entre atividade empresarial e atuação política. A insistência de Flávio em pedir abertura de CPI do Banco Master busca, na prática, deslocar a disputa para o plano político, mas não impede que o avanço das diligências da PF transforme o áudio em elemento central de investigação e de narrativa pública nas próximas semanas.