Uma gravação divulgada nesta quarta-feira pelo portal Intercept Brasil coloca novamente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, no centro de um caso sensível que mistura política, recursos privados e investigação policial. No áudio, atribuído a uma conversa ocorrida em novembro último, Flávio dirige-se a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e cobra um montante de R$ 134 milhões que, segundo a apuração, seria destinado à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.
A reportagem também afirma que parte desse montante chegou a ser repassada por meio de transferências da Entre Investimentos e Participações — parceira das empresas de Vorcaro — para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro. Pelo menos R$ 61 milhões teriam sido pagos em seis operações entre fevereiro e maio do ano passado. A produção, de acordo com o material-base, seria realizada nos Estados Unidos, com coordenação de Eduardo Bolsonaro, hoje fora do país.
O contexto reforça o potencial eleitoral e institucional da revelação. A conversa teria ocorrido um dia antes da prisão de Vorcaro pela Polícia Federal, no âmbito de um esquema que envolve suspeitas de pagamento de propina, lavagem de dinheiro e lobby. Instituições públicas, entre elas o Banco de Brasília (BRB), sofreram prejuízos relacionados a operações com ativos do Master, e a tentativa de compra do banco pelo BRB levou à prisão de um ex-diretor. Questionado em Brasília, na manhã desta quarta, durante visita ao presidente do STF, o senador rebateu a existência do áudio: “É mentira”, disse a um jornalista.
Fontes da Polícia Federal ouvidas pelo Correio afirmam que o conteúdo ainda não constava formalmente entre as diligências da operação que apura o esquema, mas deve ser incluído no rol de investigações da chamada Operação Compliance Zero. Politicamente, o surgimento do material aumenta a pressão sobre a campanha de Flávio Bolsonaro, ao vincular de forma explícita um pedido de recursos a um empresário já no foco de grandes apurações, e amplia a exposição da família Bolsonaro enquanto tenta consolidar uma narrativa de renovação e combate à corrupção.
O episódio abre perguntas práticas sobre rastreamento de recursos, participação de aliados na articulação e possíveis responsabilidades administrativas e penais. Até que as autoridades confirmem a autenticidade do áudio e aprofundem as apurações, o registro funciona como retrato de um momento prejudicial ao projeto político do grupo: mesmo negada, a informação amplia desgaste e complica a narrativa oficial em plena pré-campanha.