Um estudo conduzido pelo Monitor do Debate Público, ligado à UERJ, aponta que os áudios em que o senador Flávio Bolsonaro negocia repasses com o banqueiro Daniel Vorcaro provocaram um desgaste relevante em segmentos conservadores menos ideológicos. Divulgados em 13 de maio pelo The Intercept Brasil, os arquivos descrevem um acordo de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões na época), com R$ 61 milhões efetivamente liberados entre fevereiro e maio de 2025 — informações que passaram a ser foco de discussão entre eleitores monitorados pelos pesquisadores.
A pesquisa acompanhou desde 2023 grupos de WhatsApp representando seis perfis: bolsonaristas convictos, bolsonaristas moderados, indecisos conservadores, indecisos progressistas, lulodescontentes e lulistas. Os resultados mostram que os apoiadores fiéis mantiveram alinhamento e interpretaram o episódio como perseguição política. Mas, crucialmente para o tabuleiro eleitoral, bolsonaristas moderados e conservadores indecisos sinalizaram descrédito, dúvidas sobre a versão do senador e cansaço com a política — uma reação que, segundo os autores, pode complicar a atração de votos fora da base dura.
Coordenadora do projeto, a cientista política Carolina de Paula e o pesquisador João Feres Jr. destacam que o caso foi um dos raros eventos capazes de gerar dissenso dentro do bloco conservador. Mesmo entre aqueles que não romperam o apoio, passou a circular a exigência de comprovações e explicações mais detalhadas sobre a origem e a destinação dos recursos envolvidos. Esse tipo de desgaste tende a cobrar preço político em eleitores menos ideologizados, que pesam mais num eventual segundo turno ou em cenários competitivos para 2026.
Do ponto de vista prático, o levantamento acende um alerta para a campanha de Flávio Bolsonaro: manter a fidelidade dos convictos não basta se a margem com moderados e indecisos se estreitar. Em períodos eleitorais, credibilidade e capacidade de persuasão junto ao centro do eleitorado valem mais do que a resistência da base. A evidência empírica dos grupos de WhatsApp sugere que a resposta do senador — e o ritmo de esclarecimentos que vierem a ser apresentados — terá impacto direto na sua capacidade de crescer além do núcleo partidário.