Aos 67 anos, o psiquiatra e escritor Augusto Cury deixou definitivamente o terreno das palestras e dos livros de autoajuda para ingressar na corrida presidencial de 2026. Lançado pelo Avante, Cury se apresenta como alternativa fora do sistema partidário tradicional, tentando converter sua ampla visibilidade cultural em capital político, numa estratégia que mira eleitores cansados da polarização entre Lula e o bolsonarismo.
O currículo público do candidato pesa a seu favor em termos de reconhecimento: médico formado em São José do Rio Preto, autor da chamada Teoria da Inteligência Multifocal e responsável por mais de 30 milhões de livros vendidos, com títulos traduzidos e obras de grande circulação. O filme baseado em seu livro de maior sucesso também ajudou a consolidar sua imagem junto a um público amplo e heterogêneo — mas reconhecimento cultural não equivale, por si só, a estrutura eleitoral.
Na apresentação oficial em Belo Horizonte, Cury defendeu uma plataforma que mistura menos intervenção estatal na economia com políticas sociais — síntese que ele resume como ‘mente capitalista, coração social’ — e colocou a saúde mental, o ensino empreendedorial em comunidades e a prioridade no combate ao feminicídio entre as propostas. Também afirmou ver a Presidência mais como um serviço público do que como liderança messiânica, buscando diferenciar-se do discurso das lideranças vigentes.
Os números, porém, mostram a limitação do projeto até aqui. Em levantamento Datafolha citado na cobertura, Lula aparece com 39% e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno; nomes como Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema pontuam mais atrás, enquanto Cury divide espaços com Pablo Marçal, ambos com cerca de 2%. Esse desempenho modesto expõe dois desafios concretos: transformar notoriedade em voto e superar a fragilidade organizacional de um partido pequeno para disputar capilaridade nacional.
A candidatura de Cury merece atenção política mais pelo sinal que emite do que pelo tamanho atual: sua entrada reforça a existência de uma demanda por alternativas anti‑polarizadas e pode deslocar votos de centros e bolsonaristas moderados, pressionando a margem de manobra de candidaturas já estabelecidas. Ao mesmo tempo, a capacidade de ampliar esse eleitorado dependerá de articulação partidária, tempo de TV e clareza programática — aspectos nos quais o Avante e o próprio candidato terão de mostrar evolução para que a aposta deixe de ser apenas simbólica.