Durante o debate presidencial da Band, no domingo (23/8), Augusto Cury (Avante) defendeu a adoção da jornada de trabalho no modelo 5 x 2 como resposta ao que chamou de crise de saúde mental entre trabalhadores. A declaração veio em resposta a Renan Santos (Missão), no momento em que os candidatos discutiam o fim da escala 6 x 1. Cury afirmou que o esgotamento físico e psicológico — que ele estimou atingir cerca de 30% da força de trabalho — exige atenção e políticas que priorizem descanso e qualidade de vida.

Na exposição, o candidato argumentou que dois dias de folga semanais permitiriam maior convívio familiar e cuidado pessoal, o que, segundo ele, tenderia a elevar a produtividade operacional. Reconheceu, contudo, que a escala 6 x 1 atende “determinados setores da economia” e defendeu ajustes que conciliem as necessidades das empresas com a proteção do trabalhador. A proposta surge como um apelo à pauta da saúde mental, tema sensível na campanha e capaz de ressoar entre servidores e profissionais de serviços que acumulam jornadas e tarefas intensas.

Politicamente, a defesa pública do 5 x 2 tem duplo efeito: por um lado, amplia o discurso de proteção ao trabalhador e pode atrair eleitores preocupados com bem‑estar e qualidade de vida; por outro, acende sinais de alerta junto ao empresariado e a setores que dependem de escalas diferenciadas — logística, indústria e áreas de serviços noturnos tendem a resistir a obrigatoriedades que encareçam operações. A proposta, portanto, abre uma tensão natural entre o apelo social e o custo econômico/operacional que terá de ser enfrentado na formulação de políticas e, eventualmente, na tramitação legislativa.

No curto prazo, a iniciativa funciona como tema de campanha: politiza um problema concreto e força adversários a se posicionarem. Resta saber se Cury apresentará medidas detalhadas sobre compensações, flexibilidade setorial e impacto fiscal, ou se a proposta permanecerá como argumento retórico no debate. Em um cenário no qual a centro‑direita valoriza eficiência e custo, a adoção de uma agenda que proteja a saúde mental exigirá articulação com empresários e clareza técnica para não virar ponto de atrito que complique alianças e a capacidade de governar.