Em entrevista ao CB.Poder, o escritor e pré‑candidato pelo Avante Augusto Cury apresentou uma agenda institucional e econômica que mistura proposta de mudança do regime com um pacote de medidas voltadas ao crescimento e ao empreendedorismo. No núcleo político, Cury defende a transição para um semipresidencialismo ou parlamentarismo “de direito”, argumento que sustenta na atual centralidade do Congresso sobre o orçamento e no risco de traumas institucionais provocados por processos de impeachment.
A proposta prevê a divisão clara de atribuições: um primeiro‑ministro indicado e chancelado pelo Parlamento responsável pela gestão cotidiana e um presidente concentrado em relações exteriores, política de Estado e comando das Forças Armadas. O pré‑candidato enfatiza que a mudança teria de passar por um novo plebiscito — ele alega que a consulta de 1993 já não reflete a realidade e o perfil da juventude brasileira — o que coloca a própria proposta no centro de um debate político amplo e potencialmente divisivo.
No campo econômico, Cury faz duras críticas ao atual patamar da Selic (citada em 14,75%), ao spread bancário e ao custo do capital próximo a 20% ao ano. Sua saída combina responsabilidade fiscal — combate a gastos acima da arrecadação — com medidas para reduzir juros a 4%–6% por meio da atração de fundos soberanos e da criação de uma secretaria executiva para captação de recursos externos com seguro em dólar. A proposta é alinhada a uma visão liberal de mercado, mas levanta perguntas sobre viabilidade e dependência de capital estrangeiro.
Para enfrentar o impacto da inteligência artificial no emprego, Cury propõe a criação de 10 mil escolas ou clubes de empreendedorismo e a formação de 10 milhões de microempreendedores em uma década, além de um Banco do Empreendedor voltado às microempresas das periferias. A ambição é nítida: combinar educação empreendedora com crédito direcionado. Resta saber se a escala proposta terá resultado prático diante de fragilidades institucionais e do custo fiscal de um programa massivo de financiamento.
Do ponto de vista político, a iniciativa tem potencial tanto para abrir espaço à agenda de responsabilidade fiscal quanto para amplificar desgaste: plebiscito sobre regime e propostas econômicas ambiciosas exigem coalizões, articulação e clareza sobre trade‑offs. A defesa de equipes técnicas vindas de Insper, FGV e do mercado sinaliza tentativa de dar credibilidade liberal ao projeto. Mas traduzir intenção em política pública implica vencer resistências no Congresso e convencer eleitores sobre mudanças institucionais profundas — um desafio que pode complicar a narrativa do próprio candidato.