A ausência do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, no lançamento do programa do governo contra o crime organizado no Palácio do Planalto virou um sinal visível de desgaste institucional e político. A expectativa presidencial de estabelecer uma agenda comum com o Senado — capaz de cicatrizar as feridas abertas pela rejeição de Jorge Messias ao Supremo — não se confirmou. O gesto tem efeito prático: a proposta constitucional que sustenta o programa aguarda despacho de Alcolumbre para iniciar tramitação na Casa.
A PEC da Segurança é o eixo do projeto do governo para ampliar a participação federal no enfrentamento a esquemas criminosos interestaduais e internacionais. Parte da argumentação oficial é que medidas isoladas dos estados não bastam para lidar com estruturas complexas. Mas a iniciativa enfrenta resistência: governadores e parlamentares de oposição alertam para o risco de uma ampliação excessiva das atribuições federais e veem na reforma uma perda de autonomia estadual. Nesse cenário, a falta de sintonia com o presidente do Senado torna mais difícil converter o programa em política pública efetiva.
O litígio entre Executivo e Senado tem origem clara: a articulação que levou à rejeição de Jorge Messias, conduzida por Alcolumbre, aprofundou a mágoa política. Além disso, episódios recentes mostram alinhamentos incomuns no Congresso — Alcolumbre aproximou-se de aliados do bolsonarismo em votações — e sinais de fragmentação no debate sobre segurança. No curto prazo, a decisão de Alcolumbre de não participar do anúncio complica a estratégia do Planalto para destravar negociações com estados e com o Centrão, cuja adesão é decisiva para a tramitação.
A dispersão das forças políticas também ficou explícita em iniciativas paralelas: comissões da Câmara aprovaram em rapidez e sem debate um projeto que autoriza saque do FGTS para aquisição de armas, movida pela chamada bancada da bala, evidenciando outro tipo de pressão legislativa que pode desviar o foco do plano federal. Para o governo, o desafio é duplo: além de convencer que a PEC não usurpa competências estaduais, é preciso recuperar interlocução com o Senado. Se a ruptura persistir, a proposta corre risco de naufragar, e o custo político para Lula será concreto — perda de agenda, desgaste eleitoral e maior dificuldade em transformar o anúncio em resultado prático para o eleitor preocupado com a segurança pública.