O primeiro debate entre presidenciáveis, marcado para hoje, às 20h, na Band, tem dois protagonistas invisíveis: Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Ambos optaram por não subir ao palco, estratégia que resume um cálculo político simples — preservar vantagem nas pesquisas e reduzir o risco de episódios que possam alterar rapidamente a percepção do eleitorado. Na prática, a ausência transforma o encontro em vazão para candidatos de menor expressão no levantamento, mas com potencial tático de bater em ambos os favoritos.

A história brasileira registra decisões semelhantes: Collor evitou confrontos no primeiro turno de 1989; FHC recusou debates em 1998; Lula ausentou-se em momentos essenciais de 2006 e 2022 e Bolsonaro teve participação interrompida em 2018 por razões de saúde. Hoje, os números do Datafolha reforçam a lógica dos ausentes: Lula aparece com 39% das intenções no primeiro turno, contra 33% de Flávio; Caiado tem 5%; Renan Santos, 4%; Zema, 3%; e Cury, 2%. No segundo turno, Lula soma 47% contra 43% do adversário, margem dentro da margem de erro de dois pontos — sinal de que qualquer incidente pode provocar deslocamentos significativos.

Para Lula, a decisão tem raiz defensiva. A divulgação de novas acusações envolvendo seu entorno, incluindo episódios associados a Lulinha e questionamentos sobre pagamentos vinculados ao INSS, colocaria o petista no centro de um debate dominado por ataques de direita. Evitar o confronto ao vivo reduz a exposição a perguntas imprevistas e edições de imagem que possam amplificar desgaste. No entanto, essa proteção tem custo político: a ausência é narrativa pronta para adversários e mídia crítica, alimentando a acusação de fuga de responsabilidade e diminuindo oportunidades de mostrar controle e resposta em público.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, condicionou presença à participação de Lula — movimento que indica cálculo distinto. Ao recusar enfrentar concorrentes diretos do campo conservador, ele evita desgastes que poderiam fragilizar sua capacidade de aglutinar o eleitorado de direita no segundo turno. Dados do levantamento mostram que ele receberia apenas parte dos votos de Zema (60% dos eleitores), Caiado (54%) e Renan (48%) em um eventual confronto, o que torna a consolidação de uma frente anti-Lula vulnerável. Confrontos diretos com candidatos que disputam as mesmas urnas expõem contradições, alianças passadas e laços com personagens investigados — temas que podem corroer a imagem de candidato único e viável.

O cálculo que leva à ausência nos debates é racional no curto prazo, mas perigoso a médio prazo. Preservar liderança, arrecadação e palanques estaduais vale enquanto a narrativa de poder se mantém intacta; basta um fato novo, uma denúncia crível ou um desempenho consistente de rivais para que a vantagem encolha. Mais do que evitar perguntas indesejadas, a decisão alimenta uma sensação de proteção excessiva que pode reforçar críticas sobre evasão de accountability. Para eleitores indecisos e formadores de opinião, o balanço entre risco e responsabilidade vai moldar o que resta da disputa — e o debate, mesmo sem os favoritos, pode acabar sendo o termômetro dessa vulnerabilidade.