A pesquisadora Gisele Agnelli, que vive nos Estados Unidos e publicou Autocracia Made in USA, afirma que a segunda gestão de Donald Trump é qualitativamente diferente da primeira e potencializa riscos de influência externa sobre a política brasileira. Em entrevista, ela descreve um movimento deliberado de captura institucional — com a nomeação de dirigentes alinhados ideologicamente e a erosão de freios e contrapesos — que, na sua avaliação, transforma a Casa Branca em ator mais capaz de projetar poder além das fronteiras.

Agnelli aponta como mecanismos dessa mudança a confrontação direta com a burocracia federal e a articulação de quadros simpáticos ao projeto político do presidente, passos que teriam enfraquecido barreiras internas ao exercício autoritário. Para ela, esse rearranjo institucional não fica restrito ao plano doméstico: gera-se uma rede de interlocução com movimentos e lideranças de extrema-direita pelo mundo. No Brasil, a pesquisadora cita o trânsito político entre setores do bolsonarismo e administrações estaduais afinadas com o trumpismo, como exemplo de como essa influência pode se materializar. Ela também mencionou o episódio envolvendo Alexandre Ramagem — preso nos EUA por irregularidades no passaporte e liberado em seguida — como indicativo do grau de interlocução entre atores brasileiros e estruturas vinculadas ao novo poder estadunidense.

O quadro descrito por Agnelli tem implicações diretas para a campanha de 2026 e para a estratégia política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao mesmo tempo em que reconhece força da democracia e das instituições brasileiras como contrapeso, a cientista política vê aumento de dificuldade eleitoral para Lula: a capacidade externa de mobilizar e abastecer atores políticos e narrativas domésticas pode amplificar a polarização e deslocar undecideds. Para ela, a defesa da soberania e a tradução concreta dessa pauta em medidas que ressoem entre eleitores indecisos são caminhos possíveis para neutralizar parte desse risco.

Do ponto de vista institucional e geopolítico, o diagnóstico impõe um recado claro ao governo: não basta condenar retoricamente a interferência; é preciso fortalecer canais diplomáticos, garantir autonomia de órgãos de inteligência e segurança e comunicar, de forma tangível, políticas que reforcem soberania e proteção de processos eleitorais. Se as observações de Agnelli se confirmarem, teremos um cenário em que pressões externas e lógicas de alinhamento ideológico acrescentam um novo elemento de fragilidade à disputa interna — um desafio que complica a narrativa oficial e exige resposta prática para preservar confiança nas instituições.