Um vídeo postado em setembro de 2023 pelo balconista Rick Azevedo, então trabalhando em uma farmácia no Rio, virou ponto de partida para uma discussão nacional sobre jornada de trabalho. O desabafo sobre a exaustão causada pela escala 6x1 mobilizou apoio popular — uma petição chegou a superar 3 milhões de assinaturas — e deu origem ao Movimento Vida Além do Trabalho (VAT). A trajetória do autor do vídeo foi rápida: Azevedo passou a publicar mais sobre o tema, fundou o movimento e, um ano depois, foi eleito vereador com mais de 29 mil votos.

Nesta quarta-feira (27/5), a Câmara dos Deputados aprovou por 461 votos a favor e 19 contra o projeto que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e prevê a substituição do modelo 6x1 por cinco dias de trabalho e dois dias de descanso remunerado. A pauta, inicialmente transformada em PEC pela deputada Erika Hilton, saiu do formato mais ambicioso — que previa 36 horas e abertura para a semana de quatro dias — e percorreu um processo de negociação até a versão agora aprovada. A mudança consolida uma demanda social que transitou rapidamente das redes sociais para o Congresso.

A adesão de parlamentares de centro e da direita, citada durante a tramitação, mostra que a pauta ultrapassou antigos alinhamentos ideológicos, mas também expõe um dilema prático: a proposta enfrenta resistência consistente do setor privado. O comércio e serviços alertaram para aumento de custos trabalhistas e questionaram a capacidade do país de absorver a mudança sem ganhos prévios de produtividade e investimentos em qualificação. A Confederação Nacional da Indústria estimou impacto negativo de R$ 76 bilhões no PIB (-0,7%), e executivos do varejo classificaram a proposta como populista e difícil de enquadrar sem um plano econômico complementar.

Politicamente, o episódio tem efeitos claros: transforma um apelo popular em vitória legislativa, reforça a visibilidade de movimentos sociais que reconfiguram a pauta trabalhista e pressiona o governo e o Congresso a definirem medidas de transição que minimizem custos e efeitos sobre empresas e empregos. A aprovação em plenário não encerra a disputa: restam a análise de propostas de execução, eventuais vetos e a reação do mercado. A leitura mais prudente é a de que uma vitória amplamente simbólica — e reclamando legitimação popular — passa a cobrar resultados práticos e mitigação de impactos econômicos, sob risco de alimentar novo ciclo de controvérsia entre Legislativo, setor produtivo e sociedade.