Um grupo de bispos católicos endereçou ao “povo de Deus” uma carta pública sobre o 2º turno das eleições, na qual conclama os fiéis a irem às urnas no próximo domingo (25/10). Embora o texto não cite nominalmente Flávio Bolsonaro, descreve com clareza posições e referências a seu projeto político e às realizações do governo de seu pai, e associa essa candidatura a uma ameaça à democracia. Até o momento a peça reúne 56 assinaturas provenientes de 20 unidades da Federação, sinalizando uma mobilização da hierarquia eclesiástica em torno do tema.

O documento critica propostas e posturas atribuídas ao bolsonarismo — como a defesa de horários de trabalho que seus signatários consideram desrespeitosos ao trabalhador e a promoção de políticas que, segundo eles, promovem submissão externa e risco à soberania. Os bispos também apontam contradições entre esses posicionamentos e a Doutrina Social da Igreja, citam posicionamentos sobre políticas sociais, armas e mudanças climáticas, e lembram episódios controversos do passado político, colocando a disputa eleitoral no patamar de escolha que afeta a própria existência de instituições democráticas.

Do ponto de vista político, a carta acende alerta para o potencial impacto sobre o eleitorado católico, que continua numeroso e politicamente relevante. Ao enquadrar a disputa como uma questão de coerência entre práticas públicas e valores religiosos, os bispos podem deslocar votos indecisos ou pressionar parcelas conservadoras que se veem divididas entre identidade religiosa e alinhamento com o bolsonarismo. Para a campanha associada ao nome citado indiretamente, o pronunciamento cria um dilema: rebater a crítica pode inflamar ainda mais a polarização; recuar, por outro lado, deixa sem resposta uma acusação de incompatibilidade com normas morais e sociais essenciais.

A intervenção eclesiástica também tem efeito simbólico institucional: ressalta o papel de atores não partidários no jogo político e amplia a visibilidade de argumentos que vão além do cálculo eleitoral imediato. Em um pleito marcado por tensão sobre as regras democráticas, a carta dos bispos adiciona pressão pública e complica a narrativa favorável à candidatura bolsonarista nos dias que antecedem a votação — sobretudo entre eleitores para quem a autoridade moral da Igreja pesa nas escolhas eleitorais.