A sucessão de relatos de usuários que tiveram publicações políticas restringidas ou perfis inteiros removidos do Instagram nas vésperas do primeiro turno acende um sinal de alerta sobre os limites e os riscos da moderação automatizada em períodos eleitorais. O caso do escritor Marcelo Moutinho — cujo post memorialístico sobre a eleição de 1989 foi bloqueado no Brasil e só voltou ao ar depois do primeiro turno, sem opção eficaz de contestação — ilustra como decisões da plataforma podem interferir no debate público no momento mais sensível da democracia.
Um levantamento da ONG CTRL+Z, obtido pela reportagem, reuniu mais de mil casos envolvendo remoções, restrições de contas e queda de alcance de publicações sobre eleições no Instagram. Entre esses, a organização identificou 46 ocorrências relacionadas a jornalistas e movimentos, 97 a criadores de conteúdo e 50 ligadas a partidos políticos. A entidade aponta ainda episódios de classificação equivocada, em que conteúdos políticos teriam sido enquadrados em categorias destinadas a combater exploração sexual infantil — um tipo de erro que amplia o dano reputacional e dificulta qualquer reparação rápida.
A CTRL+Z reclama transparência sobre os critérios aplicados, justificativas detalhadas para cada restrição e um canal de revisão humana; a mesma crítica sustenta a afirmação de que as medidas atingiram majoritariamente perfis de apoio ao ex-presidente, ainda que também haja relatos em menor número contra o atual chefe do Executivo. Do outro lado, a Meta defende sua política de moderação e questiona a metodologia do levantamento, afirmando tratar-se de uma amostragem reduzida e selecionada. O fato, porém, é que faltam instrumentos independentes para auditar essas decisões: estudos e especialistas alertam que hoje não há mecanismo robusto para verificar vieses e taxas de erro das plataformas.
O episódio tem implicações políticas e institucionais claras: restringir conteúdo sem transparência em período eleitoral não é apenas problema técnico, é risco à igualdade de disputa e ao direito de participação. A sequência de relatos pode gerar pressão por maior fiscalização regulatória, canais de recurso mais ágeis e exigência de auditoria independente — demandas que, se ignoradas, amplificam o desgaste das plataformas e complicam a narrativa oficial de moderação responsável. Em resumo: a sociedade e os órgãos eleitorais terão de cobrar respostas mais claras e mecanismos que evitem que decisões automáticas calem atores relevantes às vésperas de uma votação.