O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, associou diretamente a iniciativa do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) — que propõe tarifas de 25% sobre parte das importações brasileiras — à atuação de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em vídeo divulgado nas redes sociais, Boulos afirmou que a medida não mira o governo, mas “as empresas brasileiras e os trabalhadores brasileiros”, e relacionou a proposta à recente visita de Flávio e Eduardo Bolsonaro à Casa Branca.

O documento do USTR aponta questionamentos sobre políticas brasileiras em áreas como comércio digital, tarifas, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. A proposta ainda está em fase preliminar: o governo americano prevê consultas públicas e audiências antes de qualquer sanção definitiva. O texto também prevê exceções para produtos como carne bovina, café, frutas, petróleo e minérios metálicos, mas não elimina o potencial impacto setorial apontado pelo órgão norte-americano.

Boulos alertou para um efeito prático que já é plausível com base no próprio teor da proposta: empresas que exportam para os EUA poderiam ser induzidas a deslocar atividades para território americano para escapar de barreiras tarifárias, o que representaria risco de perda de empregos no Brasil. A acusação dirigida a membros da família Bolsonaro — a quem chamou de “traidores da pátria” — amplia o peso político da disputa, transformando uma medida técnica do comércio internacional em risco de desgaste para o bolsonarismo e seus aliados.

Do ponto de vista institucional, a abertura do processo pelo USTR coloca o governo brasileiro diante da necessidade de uma resposta técnica e diplomática articulada: defender a economia exportadora, contestar eventuais alegações de práticas discriminatórias e evitar que a discussão se transforme em perda de mercado para setores sensíveis. Politicamente, a acusação pública de Boulos complica a narrativa da oposição sobre a relação entre atores políticos nacionais e interesses externos, elevando a temperatura do debate e exigindo reação clara do Planalto para limitar danos econômicos e eleitorais.