O ministro da Secretaria‑Geral da Presidência, Guilherme Boulos, voltou a apontar nesta terça‑feira que a proposta de acabar com a escala de trabalho 6 por 1 enfrenta resistência articulada por setores econômicos que, segundo ele, fazem pressão para adiar a votação. Em entrevista ao programa da EBC, o ministro afirmou que há tentativas de impor calendários e cláusulas que mudariam a data de vigência da nova jornada — medidas que, ainda de acordo com Boulos, não terão apoio do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para contrapor a narrativa das entidades empresariais, o ministro citou levantamento do Dieese que estima impacto médio de cerca de 1% no custo operacional com a redução da jornada para 40 horas semanais. Boulos usou esse dado para argumentar que medidas semelhantes de recomposição de renda — como o aumento real do salário mínimo em governos anteriores — não provocaram ruptura do emprego formal. Na fala do ministro, o quadro macroeconômico atual, com taxa de desemprego baixa na série histórica e recuperação do produto, reforçaria a possibilidade de conciliar avanço de direitos trabalhistas e estabilidade econômica.

Além do argumento puramente econômico, Boulos ressaltou efeitos sociais e de produtividade: afirmou que jornadas longas elevam casos de esgotamento e afastamentos por problemas de saúde mental — citando que, no ano passado, cerca de 500 mil trabalhadores foram retirados do trabalho por esse tipo de problema — e que a redução das horas pode aumentar rendimento por trabalhador. O ministro também destacou a dimensão de gênero da proposta: afirmou que o modelo 6 por 1 tende a penalizar mulheres, que acumulam dupla jornada e frequentemente perdem o único dia de descanso para tarefas domésticas, e que o fim da escala seria uma correção dessa desigualdade.

O enquadramento adotado por Boulos — que descreve a reação contrária como um "terrorismo econômico" — cumpre papel político ao expor a pressão sobre o governo, mas também converte a negociação em confronto público com setores influentes. Na prática, a proposta terá de ser traduzida em argumentos técnicos e em garantias para pequenos empregadores se quiser avançar no Congresso. Cabe ao Palácio do Planalto combinar narrativa social com dados robustos, apresentar cronograma de implementação e responder às objeções do mercado para evitar recuos ou emendas que diluam o objetivo original. A votação será um teste da capacidade do governo de transformar promessa eleitoral em legislação diante da resistência econômica e política.