Em discurso em Salvador, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que o ex-presidente norte-americano Donald Trump teria interesse em impedir a reeleição de Lula por causa das riquezas minerais do país. Segundo o ministro, Flávio Bolsonaro seria, na prática, a representação dos interesses de Trump no pleito. A declaração foi a primeira manifestação pública de um integrante do governo após o indicativo de que os Estados Unidos podem aplicar tarifas de até 37,5% a produtos brasileiros.
O episódio mistura política doméstica, comércio exterior e diplomacia. A medida em estudo pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) é baseada em investigação que aponta falhas no mercado brasileiro e indícios de endosso a práticas de trabalho forçado — argumentos usados pelos americanos para justificar o chamado "tarifaço". Em Brasília, a sinalização de uma taxação pesada já foi criticada pela diplomacia brasileira; a manifestação de um ministro que atribui motivações geoestratégicas externas tende a elevar a temperatura do debate público e a complexificar a resposta oficial.
Politicamente, a acusação cumpre dois objetivos claros: nacionalizar a disputa e transformar uma ação comercial dos EUA em argumento eleitoral. Ao identificar um adversário externo por trás da candidatura oposicionista, o governo procura consolidar um discurso de defesa da soberania e mobilizar sua base. Ao mesmo tempo, a estratégia expõe riscos — pode desgastar ainda mais as relações com um parceiro comercial relevante e deslocar a atenção de problemas apontados na investigação americana, que demandariam respostas técnicas e transparência por parte do Brasil.
No palanque, Boulos estava acompanhado de líderes petistas como o governador Jerônimo Rodrigues, o ex-ministro Rui Costa e Jaques Wagner — este último citado em investigações policiais relacionadas ao caso do Banco Master. A cena confirma que o governo decidiu responder politicamente ao episódio, mas deixa no ar a necessidade de calibrar o discurso com medidas diplomáticas e econômicas concretas. A opção por uma retórica que liga interesses externos a recursos naturais acende um alerta para a agenda internacional do país e complica a narrativa oficial em um momento sensível para comércio e campanha.