O senador Eduardo Girão, anunciado como candidato a vice na chapa de Romeu Zema pelo Novo, apresentou ontem a aposta central da campanha: transformar a experiência administrativa do ex-governador em um projeto nacional capaz de romper a atual polarização. Em entrevista ao Podcast do Correio, Girão vendeu a dupla — combinação de vivência no Executivo e no Legislativo — como resposta à crise de gestão que, segundo ele, deixou o país “quebrado”. A mensagem unifica defesa de privatizações, repertório técnico e discurso moral contra práticas que classificou como privilégio de atores intocáveis nas instituições.

Politicamente, a narrativa é dupla: por um lado, busca capitalizar o capital de Zema em gestão para atingir eleitores que reclamam eficiência e responsabilidade fiscal; por outro, pretende descolar a campanha do centro — ganhar terreno no Nordeste, região em que o presidenciável ainda é pouco conhecido e historicamente inclinado ao PT. Girão considera que a decisão do eleitor costuma ocorrer tardiamente e aposta na reta final para aumentar a exposição do candidato. A estratégia é clara: converter um passivo de reconhecimento em ativo eleitoral com ênfase em ética, família e patriotismo.

Há, porém, riscos evidentes. A escolha de polarizar o discurso institucional, com críticas diretas ao Supremo e a menção explícita de que a disputa envolverá indicações de quatro ministros para o STF, tende a inflamar tensões e a fornecer munição para adversários que acusam a chapa de confrontacionista. A ausência de Zema no primeiro debate — defendida por Girão como decisão amadurecida e justificada pela falta do principal adversário na grade — pode ser interpretada como estratégia calculada para preservar imagem, mas também constrói narrativa de evasão que opositores explorarão. Nacionalizar uma candidatura cujo capital eleitoral está concentrado em Minas exige riscos calculados e recursos de comunicação que ainda não ficaram evidentes na fala do senador.

No plano prático, o discurso sobre privatização e choque de gestão pode atrair eleitores liberais e empresariais, mas exige detalhamento de propostas executáveis para sobreviver ao escrutínio público e parlamentar. A retórica moral e a crítica às instituições funcionam como diferenciador eleitoral, porém podem ampliar resistência em setores que veem no confronto institucional um custo alto para a estabilidade. Resta à campanha transformar a narrativa de competência em provas concretas de governabilidade — e fazê-lo rápido, se quiser converter ambição em voto no Nordeste e além.