A definição do vice tornou-se peça central da pré-campanha — e não por acaso. A antecipação da indicação de Gilberto Kassab para compor a chapa de Ronaldo Caiado traduz tanto uma necessidade de costura partidária quanto a urgência de conter uma candidatura que patina nas pesquisas, em torno de 3%. Em vez de ser um instrumento de agregação, a vaga de vice pode facilmente virar problema: investigações, processos ou escândalos pessoais elevam o custo político da escolha e criam pressão para substituições que desgastam campanhas e partidos.
No caso de Caiado, a entrada de Kassab tem leitura clara. Figura de centro e articulador veterano, Kassab atua para evitar a cristalização de correntes internas e mobilizar a máquina do PSD — especialmente depois da perda de palanque mais amplo quando o ex-governador deixou o União Brasil. A autonomia reduzida no jogo nacional expôs a fragilidade de uma terceira via que depende mais do aparato partidário do que de tração eleitoral. A tentativa de atrair nomes do PSDB, como via para ampliar densidade eleitoral, não se materializou; a chapa tenta assim conter um cenário de estagnação que obriga estratégia defensiva e ajustes rápidos.
No campo bolsonarista, o tabuleiro continua instável. A indefinição sobre o vice de Flávio Bolsonaro revela fissuras internas e um problema maior: o risco de que escolhas pessoais e conflitos familiares contamine a agenda de campanha. A hipótese de aliança com Romeu Zema foi abalada por episódios recentes, e o episódio conhecido como 'Master' e as relações com atores do universo financeiro — citados em conversas públicas e nos bastidores — complicam articulações. Michelle Bolsonaro aparece como alternativa política e conta com imagem própria; seu eventual aproveitamento, porém, exigiria neutralizar tensões que hoje chegam a dividir o núcleo do bolsonarismo. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, segue o papel de gestor de emergências, mas soluções artificiais têm custo e risco de gerar mais fissuras.
A dobradinha que sustenta a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva com Geraldo Alckmin mantém o contraste: estabilidade, sinalização de governabilidade e menor custo operacional para a campanha. Para adversários e eventuais parceiros, isso é um trunfo que reduz o espaço para experimentos arriscados. No conjunto, a corrida por vices revela duas lições políticas concretas: primeiro, que o vice já não é só somatório de apoios regionais, mas variável de risco jurídico e reputacional; segundo, que a incapacidade de construir amplitude nacional — via negociação com outras siglas — transforma escolhas internas em contas que podem sair caras. Em 2026, quem errar na avaliação dos passivos pessoais e na blindagem institucional pode ter de enfrentar substituições traumáticas, perda de foco na campanha e aumento do desgaste perante eleitores e mercados.