Ronaldo Caiado usou a sabatina no programa CB.Poder para formalizar o que já vinha sendo costurado nos bastidores: sua pré-candidatura à Presidência pelo PSD será vendida como alternativa à polarização entre bolsonarismo e petismo. Ao apresentar o desempenho administrativo em Goiás como cartão de visitas, ele busca deslocar o debate do confronto ideológico para a gestão prática, prometendo "romper as bolhas" que, em sua avaliação, impedem a discussão de temas concretos para a vida das pessoas.
O ex-governador destacou índices de aprovação locais que, segundo sua fala, variam entre 85% e 88%, e listou avanços em educação, transparência, programas sociais, inteligência artificial, segurança pública e recuperação fiscal. Esses elementos formam a narrativa central de sua campanha: não um político de "likes", mas um gestor que entrega resultados. A ênfase em números e em projetos como a produção de biometano em usinas de lixo e de cana ilustra a tentativa de transformar realizações estaduais em credenciais nacionais.
A eleição de 2026 será um divisor; precisamos romper as bolhas da polarização para discutir o que importa ao cidadão.
Na crítica ao governo federal, Caiado foi direto ao apontar uma suposta incapacidade de tratar problemas estruturais — da educação à segurança e à política de combustíveis — e definiu a gestão central como "acéfala" por privilegiar o embate polarizado. A avaliação do pré-candidato relaciona a recorrência das crises de preços de combustíveis à falta de continuidade de políticas e à precariedade do parque de refino, enquanto apresenta as iniciativas goianas em biocombustíveis como alternativa prática.
Politicamente, a fala de Caiado é ambígua: mantém laços com o bolsonarismo ao reconhecer a aliança e ao afirmar que Bolsonaro cometeu "vários erros", mas evita rompimentos. A promessa de conceder anistia a Bolsonaro — condenado em processo que ele descreve como ligado a tentativa de golpe — e de perdoar os extremistas do 8 de janeiro é o ponto de maior impacto. Tratada como proposta de governo, a anistia tende a gerar atritos com o Judiciário, a desgastar eventuais apoios moderados e a obrigar o candidato a pagar um custo político claro junto ao eleitorado que teme impunidade.
O discurso de Caiado pretende seduzir eleitores cansados da polarização, oferecendo gestão e tecnicismo como antídotos. Mas há uma contradição evidente: ao prometer anistia para parcelas radicais do bolsonarismo, ele pode comprometer a busca por um eleitorado de centro disposto a abandonar o confronto partidário. Em linha com o perfil editorial que prioriza consequências políticas e institucionais, a estratégia do pré-candidato sinaliza que a disputa de 2026 seguirá marcada por escolhas que misturam pragmatismo administrativo e riscos de retorno a tensões institucionais.
Se eleito, vou conceder anistia a Bolsonaro e aos extremistas do 8 de janeiro, como parte da minha proposta de reconciliação política.