Brasília, DF – No Palácio do Planalto, auxiliares interpretam o avanço dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos como uma redução do espaço político do presidente Donald Trump. A leitura é que uma Câmara e um Senado menos alinhados com a Casa Branca tornam mais difícil para Washington sustentar investidas consideradas hostis ao Brasil.
Entre os cálculos do governo está a avaliação de que Luiz Inácio Lula da Silva sai fortalecido no cenário doméstico — citam a vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL) como fator político interno — e, com interlocutores democratas mais influentes em Washington, terá maior margem para negociar em condições menos assimétricas.
No Planalto também existe a expectativa de enfraquecimento da articulação internacional ligada ao bolsonarismo. Parlamentares republicanos próximos a Eduardo Bolsonaro, entre eles a deputada Maria Elvira Salazar, podem encontrar mais dificuldades para avançar propostas, como a aplicação da chamada Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
A diplomacia brasileira monitora ainda o fortalecimento de congressistas democratas que questionaram grandes empresas de tecnologia e suspeitas de interferência externa em pleitos no Brasil. Esse grupo, na avaliação do Itamaraty, pode funcionar como contraponto às investidas de aliados de Trump, sobretudo depois da saída de Flávio Bolsonaro para os EUA em meio a investigações conduzidas pelo Supremo.
Mesmo com esse otimismo calculado, integrantes do governo reconhecem que a alteração na composição do Congresso não garante uma trégua automática com a Casa Branca. Trump continua a deter instrumentos de política externa capazes de pressionar o Brasil; a aposta do Planalto é que, com menos margem política doméstica, o republicano terá dificuldades maiores para sustentar ofensivas contundentes, abrindo espaço para negociações em termos mais favoráveis a Brasília.