O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), confirmou que a Casa dará prioridade à proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da jornada 6x1, mesmo com o envio pelo Executivo de um projeto de lei que pretende acelerar a mudança. A decisão coloca em evidência o impasse entre Legislativo e governo sobre o rito legislativo — e sobre o tempo político da pauta, que é meta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No argumento oficial, Motta defende que a PEC oferece um “âmbito maior” para debate e garante uma tramitação mais estruturada, com escuta de setores e análise dos impactos econômicos e trabalhistas. A alternativa do governo, por projeto de lei com pedido de regime de urgência, reduziria prazos — e, no limite, obriga a apreciação em até 45 dias, sob risco de trancamento da pauta. A Câmara, porém, manteve o cronograma pré-estabelecido e disse não haver previsão imediata para indicação de relator do projeto do Planalto.

Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o relator da PEC, Paulo Azi (União-BA), apresentou parecer favorável à admissibilidade, mas a análise foi interrompida por pedido de vista da oposição, apresentado pelo deputado Lucas Redecker (PSD-RS). Motta informou que a presidência trabalha para destravar o calendário — citou a intenção de votar na CCJ logo após o feriado de Tiradentes —, mas o episódio escancara a fragilidade do caminho acelerado proposto pelo Executivo e a possibilidade de desgaste político caso a pressão por velocidade sufoque avaliação técnica.

Especialistas consultados pelo Legislativo alertam que a pressa pode privilegiar caderno político em detrimento de estudos setoriais: não há consenso sobre transição, compensações ou efeitos sobre comércio, saúde e indústria. Politicamente, a disputa funciona como um teste para o governo — que busca avançar na pauta social antes de 2026 — e para o Congresso, que reivindica autonomia. O desfecho dependerá da habilidade das lideranças em acomodar interesses e blindar a tramitação contra riscos de judicialização e desgaste público.