A Câmara Municipal de Salvador aprovou a transferência temporária do seu plenário para o Farol da Barra para a realização da solenidade que concederá o Título de Cidadão de Salvador ao senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A cerimônia, marcada para sábado (17/10) às 15h, ocorrerá durante ato de campanha, o que imediatamente transformou o rito legislativo em ato de visibilidade pública.

O pedido de alteração do local foi aprovado na terça-feira (13/10). A concessão do título já havia sido aprovada em 6 de maio por meio do Projeto de Resolução nº 28/2026 e regulamentada pela Resolução nº 3.592/2026, publicada em 10 de julho. A Mesa Diretora justificou a iniciativa com base no critério previsto para honrarias a não natos que tenham prestado serviços relevantes, citando atuação em segurança pública, desenvolvimento econômico e defesa de princípios constitucionais — argumentos que, segundo o próprio Legislativo, não especificam obras, investimentos ou emendas direcionadas a Salvador.

A proposta enfrentou resistência. Em maio, os dez vereadores da bancada de oposição votaram contra, alegando ausência de serviços concretos do senador em benefício da cidade. Um abaixo-assinado na plataforma Change.org, instaurado por uma cidadã local, pede a revogação da homenagem. Do lado favorável, o vereador Cezar Leite (PL) assumiu a entrega do título e defendeu a solenidade em espaço público, argumentando que a homenagem ocorrerá “no meio do povo” e em um momento de aclamação. Também consta que o senador não manteve agenda de campanha presencial em Salvador no primeiro turno e que, em sete anos de mandato no Senado, há registro de apenas uma viagem oficial à região, em dezembro de 2019.

A combinação entre uso de espaço institucional e ato de campanha acende alerta sobre a linha tênue entre protocolo legislativo e propaganda eleitoral. A decisão da maioria na Câmara reforça a capacidade de agendas partidárias influenciarem a agenda pública local e pode ampliar desgaste reputacional da Casa diante de eleitores e de segmentos da sociedade que questionam critérios e prioridades. Para a campanha de Flávio Bolsonaro, o evento oferece visibilidade em um ponto turístico icônico; para opositores e críticos, é munição para alegar artifícios de palco e falta de conexão efetiva com a cidade.

A solenidade no Farol da Barra deve ocorrer conforme publicado, com a entrega pelo vereador responsável. Resta acompanhar se a exposição pública da homenagem terá efeitos práticos na corrida presidencial ou se ampliará a pressão sobre vereadores que apoiaram a medida a justificar o critério adotado. Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.