O último dia de campanha já não se decide nas esquinas, mas na palma da mão. A proibição de boca de urna nas ruas convive com uma intensa mobilização online: compartilhamentos, mensagens dirigidas a familiares e produção massiva de memes e vídeos manipulados. O levantamento do projeto VigIA, da agência Lupa, que identificou ao menos 554 deepfakes no período, funciona como termômetro — e como aviso: a inteligência artificial ampliou a escala e a velocidade da desinformação, transformando o celular em veículo central de disputa.
No plano eleitoral, o Sudeste concentra a disputa e a atenção: São Paulo, Minas e Rio reúnem 63,3 milhões de eleitores, cerca de 40,1% do eleitorado. Pesquisas recentes mostram um quadro apertado na região. Em levantamento do Datafolha divulgado ontem, Lula tinha 42% no Sudeste contra 40% de Flávio Bolsonaro; institutos como Quaest apresentam números diferentes, mas convergem para uma redução da distância entre os dois. Nos arredores dessas médias, a volatilidade é grande e os indecisos podem decidir o resultado — justamente o eleitor que recebe maior pressão por mensagens de medo, denúncias e apelo ao voto útil.
Os impactos não se limitam à Presidência. Nas disputas estaduais há cenários para primeiro turno e embates acirrados: Datafolha e Quaest registraram paridade em diferentes colégios — de São Paulo a Pernambuco, de Bahia a Ceará — e nomes como Tarcísio em SP ou Eduardo Paes no Rio figuram como favoritos em algumas sondagens. Paralelamente, a renovação de 54 cadeiras do Senado, citada nas pesquisas, coloca em jogo a futura composição do Supremo e a governabilidade: quem vencer garantirá influência sobre indicações e processos que atravessam o Judiciário. Esse cenário eleitoral, em que a desconfiança em instituições como o STF entra no cálculo, amplia o peso simbólico e prático das cadeiras em disputa.
A leitura política é direta: a conversão de rejeição em voto útil acende alerta para campanhas e para o próprio governo, que pode ver sua narrativa complicar-se à medida que conteúdos manipulados corroem confiança e ampliam desgaste. Para o eleitor indeciso, a última mensagem que chega pelo celular pode ser decisiva — e as campanhas sabem disso. Resta ao eleitor, ao Judiciário e às plataformas o desafio de distinguir mobilização legítima de operação destinada a distorcer escolhas. No curto prazo, a batalha será pelo alcance e pela credibilidade das mensagens; no longo prazo, pela capacidade das instituições de frear a disseminação de conteúdos falsos que adulteram o processo democrático.