Um levantamento do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem/UFPR), publicado no Portal da Classe Política nesta terça (16), confirma um paradoxo estrutural: entre 1998 e 2022 o número de mulheres que disputaram vagas na Câmara dos Deputados saltou de 358 para 3.668 — alta de aproximadamente 925% —, enquanto o número de deputadas eleitas subiu de 29 para 90 (aumento de 210%). Em 2022, as mulheres ocuparam 17,5% das cadeiras da Câmara e 17,8% nas assembleias estaduais, os maiores percentuais da série histórica, mas ainda distantes da paridade e do piso de 30% previsto na legislação.
Os autores do estudo e o cientista político Nilton Sainz identificam razões institucionais para essa discrepância. A própria Lei das Cotas (Lei 9.504/1997) e a minirreforma de 2009 (Lei nº 12.034/2009) ampliaram o número de candidaturas femininas, mas não asseguraram condições equivalentes de competição: há acesso desigual a recursos de campanha, menor destino de verbas efetivas às mulheres e sub-representação nos cargos decisórios dos partidos. Além disso, o problema das chamadas candidaturas "laranjas" — lançadas apenas para cumprir cotas sem real viabilidade eleitoral — reduz a efetividade da regra e distorce a medição do avanço feminino.
Esse desequilíbrio tem consequências políticas e de políticas públicas. A sub-representação limita a voz das mulheres no debate sobre prioridades legislativas e orçamentárias, afetando temas como combate à violência de gênero, políticas de cuidado, saúde reprodutiva e creches. Quando a presença feminina no Legislativo é minoritária, essas pautas perdem força na agenda e podem sofrer cortes ou despriorização na disputa por recursos. Do ponto de vista institucional, a persistência da desigualdade também reforça a reprodução de redes de poder masculinas dentro dos partidos, dificultando renovação e transparência.
Os dados consolidados a partir das bases do Tribunal Superior Eleitoral e disponibilizados pelo Portal da Classe Política tornam o problema mais audível e auditável — e, por isso, acendem alerta para medidas além do número de candidaturas. A agenda de correção passa por fiscalização efetiva do cumprimento das cotas, transparência no repasse de recursos, sanções a candidaturas fraudulentas, e programas de fortalecimento e capacitação de mulheres candidatas. Para 2026, os números apontam que a simples manutenção das regras atuais dificilmente será suficiente para alterar substancialmente a composição do Parlamento; sem mudanças nas práticas partidárias e no financiamento, o avanço seguirá lento e desigual.