Aos 64 anos da Universidade de Brasília, a ministra do Supremo Tribunal Federal e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Cármen Lúcia, fez nesta quarta-feira (22/4) uma defesa enfática da democracia como uma experiência frágil que exige cuidado cotidiano. Na aula magna, a magistrada resgatou episódios do regime militar para lembrar como liberdades foram artificiosamente silenciadas — citou o clima de medo em 1977, quando prestou prova de Direito Constitucional, e a proibição imposta pelo Decreto 477 a votações em diretórios acadêmicos — e usou esses exemplos para contextualizar os desafios contemporâneos.

Mais relevante do ponto de vista político foi o conjunto de ameaças que a ministra enumerou: a influência difusa de algoritmos e plataformas sobre o comportamento público, o risco de atingirmos um ponto de não retorno ambiental e o crescimento de estados depressivos entre jovens diante de incertezas profundas. Ao relacionar essas forças à “erosão democrática”, Cármen Lúcia acende alerta sobre problemas que não são só culturais, mas institucionais: quando o espaço do diálogo e da deliberação se reduz, instituições que garantem direitos e procedimentos ficam mais expostas a pressões e à perda de legitimidade.

A defesa da educação como instrumento de libertação foi outro eixo do discurso. Para a ministra, universalizar e qualificar o ensino — e resgatar a dimensão formadora da universidade — é condição para resistir às manipulações tecnológicas e ao empobrecimento do debate público. No mesmo tom histórico, ela lembrou que o acesso ao conhecimento foi negado às mulheres no passado, citando a necessidade de atos monárquicos para permitir matrículas, e celebrou a Constituição de 1988 por colocar a dignidade humana no centro do contrato social brasileiro.

Do ponto de vista institucional, a fala de uma integrante da Suprema Corte e presidente do TSE tem peso simbólico e político: sinaliza preocupação do Judiciário com tendências que ultrapassam casos jurídicos e adentram o terreno social e educativo. O recado também complica a narrativa de atores públicos que minimizam riscos digitais ou climáticos, e abre espaço para cobrança por políticas públicas concretas — seja regulação tecnológica, investimentos em educação ou medidas ambientais. Mais do que um gesto retórico, foi um apelo para que a defesa da democracia deixe de ser discurso de ocasião e se traduza em ações permanentes.