Ao participar do seminário “O Brasil na visão das lideranças públicas”, promovido pela Fundação Fernando Henrique Cardoso, a ministra Cármen Lúcia buscou nesta quinta-feira (data) marcar distância entre sua atuação pessoal e o turbilhão de críticas que atingem o Supremo Tribunal Federal. Ela admitiu que a Corte precisa passar por reformas, reforçou a necessidade de transparência e disse que os magistrados devem demonstrar que estão a serviço da sociedade. Ao mesmo tempo, tentou blindar sua conduta individual, afirmando que age conforme a lei, numa tentativa clara de mitigar o impacto político sobre sua imagem.
O aforismo pessoal, porém, tem peso limitado diante do contexto. A crise desencadeada pelo caso Banco Master deixou mais explícitas as divergências internas e acentuou a percepção pública de desgaste institucional. Na semana passada, as discordâncias sobre a reformulação de decisão do Tribunal Superior Eleitoral — presidido por ela — no caso do Rio de Janeiro, e a disputa em torno da forma de eleição no Palácio Guanabara, onde Cármen Lúcia, Kássio Nunes Marques e André Mendonça se alinhavam a Luiz Fux contra a opção por votação pública defendida por Cristiano Zanin, mostraram que a Corte está fragmentada em pontos que transcendem debates jurídicos e tocam cálculo político.
A indicação da ministra para relatar um código de ética pelo presidente do STF, Edson Fachin, é outro elemento que escancara a urgência por regras mais claras de conduta. Nos bastidores, aponta-se resistência — especialmente de ministros que historicamente se mostram reticentes a normatizações — e essa resistência, se mantida, só tende a ampliar o desgaste. Cármen Lúcia reconheceu ainda a “agudização” de crises e a necessidade de repensar a dinâmica do Tribunal, citando o acúmulo processual e elogiando medidas como o plenário virtual, embora admita que há muito a aperfeiçoar.
Politicamente, a combinação entre defesa pessoal e reconhecimento institucional gera um dilema: a declaração de integridade individual não basta para conter o sinal político enviado ao eleitorado e a grupos de interesse. O STF vive um momento em que a credibilidade é moeda escassa; sem avanços concretos em transparência, ética e procedimentos, a Corte corre o risco de ver suas decisões perderem legitimidade perante a sociedade. A saída passa por reformas organizadas, por uma agenda ética com regras claras e por uma narrativa pública capaz de mostrar resultados práticos — só então a autodefesa ficará alinhada com a necessária reconstrução de confiança.