A ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia afirmou nesta quinta-feira que a situação das mulheres no Brasil é grave e sinalizou retrocessos nos direitos já conquistados. A declaração foi feita no primeiro Encontro de Juízas realizado no STF, que reuniu mais de 200 magistradas e coletivos de todo o país para apresentar propostas voltadas à redução das desigualdades de gênero dentro da magistratura.

Na avaliação da ministra, a ideia de que homem e mulher já gozam de igualdade é, na prática, uma retórica vazia — válida apenas enquanto a mulher permanecer vinculada a papéis tradicionais. Ela destacou que, embora juízas tenham o mesmo estatuto constitucional dos magistrados homens, enfrentam tratamento desigual nas rotinas dos tribunais: a palavra costuma ser menos concedida a elas e há obstáculos objetivos na promoção e no reconhecimento profissional. Cármen Lúcia também lembrou que muitas magistradas acumulam funções familiares, o que altera as condições de trabalho e oportunidades.

A ministra chamou atenção para a expansão dos agravos: problemas antes concentrados nas áreas criminais já atingem também varas de família e do trabalho, o que, segundo ela, reclama atuação do próprio Poder Judiciário para correções estruturais. No evento, coletivos de juízas apresentaram propostas práticas para reverter o quadro, reforçando a necessidade de medidas internas que vão da distribuição mais equilibrada da palavra em julgamentos à revisão de critérios de promoção e de gestão de cargos.

Cármen Lúcia criticou iniciativas que tratem a agenda de gênero como solução por redução de carga horária exclusivamente feminina, afirmando que a resposta precisa passar pela partilha das tarefas domésticas e por políticas que não sobrecarreguem um dos lados. O recado ao Judiciário é claro: sem respostas institucionais concretas, a percepção de desigualdade dentro da magistratura tende a persistir, com impacto na legitimidade e na eficiência das cortes.