A poucos dias do segundo turno de 2026, uma carta aberta assinada por mais de 100 organizações e especialistas de 25 países acusa plataformas digitais de interferência e de práticas que comprometem a integridade do pleito. Organizado pela CTRL+Z, o documento reúne denúncias que, segundo os signatários, colocam em risco liberdades públicas e a transparência do processo eleitoral brasileiro. Para as entidades, o padrão de condutas observado exige resposta clara das empresas e das autoridades.

Segundo a carta, pesquisadores, jornalistas e organizações da sociedade civil vêm documentando desde março de 2026 um conjunto de ações que, na avaliação deles, chegam a violar legislações brasileiras com a anuência operacional das empresas. Entre as alegações estão sistemas de inteligência artificial que teriam classificado e recomendado candidatos e a circulação de deepfakes sem qualquer identificação de conteúdo gerado por IA. Entre os signatários aparecem organizações como Greenpeace, Oxfam Brasil e Global Witness, além de especialistas de universidades como UnB, USP, UFRJ e UFRGS.

O documento cita estudos e levantamentos que reforçam as acusações: a organização Eko apontou pagamentos vindos do exterior para impulsionamento de anúncios políticos contendo deepfakes na plataforma da Meta; uma análise do NetLab da UFRJ, referenciada na carta, mostra que, entre 2.326 anúncios identificados na Meta, 68,1% atacavam instituições. As entidades também relatam uso de ferramentas de IA para gerar imagens ofensivas contra candidatas, com conteúdos misóginos, racistas e transfóbicos, além de relatos de usuários que sofreram banimentos, remoções e perda de alcance após publicações eleitorais, o que seria indício de moderação arbitrária.

As organizações cobram cumprimento das medidas previstas nos planos de conformidade e nos acordos firmados com as autoridades eleitorais, afirmando que, até o primeiro turno, esses compromissos não foram honrados. O TSE é cobrado por não ter empregado instrumentos de fiscalização que coibam as violações apontadas. Para as entidades, o desfecho do pleito brasileiro terá repercussão internacional e deve servir de alerta sobre a urgência de regulamentação. Em resposta ao Correio, a Meta disse que não adota posição política em eleições e que a suspensão da conta do presidente foi um erro, além de afirmar que mudanças regulatórias desde 2025 ampliaram a responsabilidade potencial das plataformas e teriam levado a aplicações mais rígidas de suas regras. O episódio acende alerta para o país: além de pressionar as plataformas, as denúncias ampliam o desgaste sobre a efetividade da fiscalização eleitoral e colocam em xeque a percepção pública de neutralidade das redes.