O Supremo Tribunal Federal vive momento de tensão institucional a partir das ramificações do escândalo do Banco Master. Reportagens que associam ministros ou seus familiares a operações e deslocamentos realizados por empresas ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro elevam a percepção de proximidade entre membros da Corte e investigados, e colocam o tribunal sob crescente pressão por transparência e regras explícitas de conduta.

O episódio ganhou nova relevância com a divulgação, por veículos de imprensa, de viagens e trocas de mensagens que envolvem ministros mencionados no caso. Segundo reportagem, o ministro Nunes Marques e sua esposa utilizaram, em novembro de 2025, um voo de empresa na qual Vorcaro aparecia como sócio; a assessoria do magistrado confirmou a participação no evento e ressaltou que declarações de suspeição são registradas previamente. Reportagens também apontaram mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes no dia da primeira prisão do banqueiro, em novembro, e contratos da advogada Viviane Barci de Moraes com o Master.

O episódio desenha um problema de percepção que afeta diretamente a legitimidade da Corte. A urgência de normas internas é óbvia.

As defesas têm reagido com notas e negativas. O gabinete de Moraes classificou reportagens como ilação e afirmou que o ministro não viajou em aeronaves do grupo ligado a Vorcaro nem mantém relação com Fabiano Zettel. O escritório de Viviane Barci afirmou que contrata diversos serviços de táxi aéreo, incluindo a empresa citada. Nunes Marques, por sua vez, declarou a suspeição em processos envolvendo amigos, segundo sua nota, e apontou que medidas administrativas foram adotadas para separar casos com vínculos pessoais do seu gabinete.

Outro ponto sensível envolve Dias Toffoli: reportagens indicaram que empresa da qual o ministro é sócio teria recebido recursos de fundo vinculado ao banco. Em reação às revelações, Toffoli deixou a relatoria das investigações e passou a declarar-se suspeito em processos relacionados; o inquérito foi redistribuído e está sob responsabilidade do ministro André Mendonça. A Folha também trouxe registro de um voo, em 4 de julho do ano passado, que teria utilizado aeronave de empresa ligada ao grupo investigado, informação sobre a qual Toffoli e a defesa não se pronunciaram diretamente.

No plano institucional, a combinação de suspeitas, negações e recuos cria custo reputacional imediato. Pesquisa divulgada recentemente mostrou que parcela expressiva da população associa o STF ao escândalo — um retrato que corrói a autoridade da Corte e que pode ter efeitos políticos mais amplos, dificultando decisões sensíveis e ampliando a pressão sobre ministros e sobre a própria Presidência do tribunal.

A proposta de código de conduta é passo necessário, mas enfrenta resistências que podem reduzir sua eficácia. Sem mecanismos de fiscalização, a iniciativa corre risco de ficar no simbolismo.

Diante do desgaste, o presidente Edson Fachin tem tentado viabilizar um código de conduta para o Supremo ainda neste ano, numa tentativa de responder às críticas e recuperar credibilidade. A iniciativa, porém, enfrenta resistências internas e ainda carece de mecanismos claros de fiscalização, o que coloca em xeque sua capacidade de restaurar confiança. Resta ao tribunal transformar a resposta normativa em medidas efetivas para blindar procedimentos e evitar que suspeitas sobre convivência privada se convertam em perda duradoura de legitimidade.