A Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) encaminhou à família de Juscelino Kubitschek um relatório da conselheira relatora Maria Cecília Adão que rompe com a versão oficial herdada da ditadura militar. Segundo o parecer, o ex-presidente e seu motorista não teriam sido vítimas de um acidente comum na Via Dutra, em 22 de agosto de 1976, mas sim de uma “ação externa” que provocou a saída do carro da pista e a subsequente colisão com uma carreta.

O documento, elaborado com base em milhares de páginas — incluindo arquivos das comissões da Verdade de Minas Gerais e de São Paulo e o inquérito aberto pelo Ministério Público Federal em 2013 — conclui que a narrativa policial que atribuiu a tragédia a uma manobra do motorista de JK ao tentar ultrapassar um ônibus não se sustenta diante das evidências reunidas. A relatora trabalhou de forma articulada com pesquisadores que revisaram perícias e depoimentos; porém, outros elementos que embasaram sua conclusão ainda serão divulgados somente ao final da deliberação colegiada.

A família, representada por Anna Cristina Kubitschek, recebeu os documentos e vê na reabertura do debate um passo relevante para a verdade histórica. A recomendação da relatora não é, entretanto, decisão final: a CEMDP, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e composta por sete membros, precisa votar o parecer em sessão que ainda não foi marcada. As determinações sobre reconhecimento ou não dependem de maioria simples no colegiado.

Politicamente, o relatório volta a colocar sob escrutínio as lacunas das investigações feitas durante o regime militar e acende a necessidade de transparência institucional. Se confirmado pelo plenário da comissão, o reconhecimento de que JK foi vítima de um atentado teria impacto simbólico e jurídico, pressionando por novos encaminhamentos de apuração e possível reparação. A matéria, por ora, reabre uma ferida histórica e testa a capacidade das instituições de enfrentar contradições do passado sem abandonar critérios técnicos e jurídicos.