Brasília, DF – O desenho do próximo governo de Luiz Inácio Lula da Silva dependerá, em grande parte, do comando do Congresso e da capacidade do Executivo de negociar com o Centrão. A manutenção de Hugo Motta (Republicanos-PB) na Câmara e de Davi Alcolumbre (União-AP) no Senado aparece como prioridade para garantir maioria, enquanto pautas com apelo popular avançam na agenda parlamentar.

Logo após o segundo turno, Lula sinalizou apoio às reconduções para evitar que a reorganização do Congresso ficasse entregue à oposição bolsonarista. Em troca, o Planalto espera obter votos para aprovar medidas de impacto social antes da posse. Exemplo recente: a PEC da Segurança Pública foi aprovada na terça-feira e a regulamentação do fim da escala 6 x 1 figura entre as prioridades que o Centrão pode capitalizar politicamente.

Mas a coalizão é conjuntural, não uma adesão programática. As bancadas que compõem o Centrão têm bases, ambições e prioridades distintas, o que mantém aberta a disputa por espaço no Orçamento, na distribuição de cargos e no alcance das políticas públicas. A eleição das mesas diretoras é apenas a primeira etapa dessa composição; o ponto central será quem assumirá os custos das decisões.

A montagem do ministério é parte essencial das negociações. A possível permanência de Gustavo Feliciano no Turismo e de Waldez Góes na Integração e Desenvolvimento Regional indica preservação de espaços ligados aos presidentes do Congresso. A hipótese de entregar a Secretaria de Relações Institucionais a um parlamentar do Centrão, como Silvio Costa Filho, colocaria um representante dos interesses parlamentares dentro do Planalto e mudaria a dinâmica das conversas diárias.

As discussões sobre indicações ao STF — incluindo o nome de Rodrigo Pacheco — e sobre a sucessão no Tribunal de Contas (TCU) mostram a extensão dos compromissos em jogo. Nomeações com base sobretudo em critérios políticos tendem a gerar resistência e a alimentar a percepção de captura institucional, um risco lembrado pelas crises que envolveram o STF e o TSE durante o processo eleitoral. Lula precisará costurar uma maioria ampla e heterogênea; os bolsonaristas, embora fragilizados, seguem sendo força política relevante.