Em maio de 2013, o sociólogo Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira, conhecido como Chico de Oliveira — um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e intelectual de esquerda de primeira grandeza —, fez uma declaração que ecoa até hoje nos meios políticos e acadêmicos. Em entrevista, ele classificou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "um oportunista sem caráter". A crítica, vinda de quem ajudou a construir o partido que Lula liderou por décadas, tem um peso que vai além da polarização entre direita e esquerda.

Chico de Oliveira argumentou que a percepção negativa de Lula como alguém de "caráter duvidoso" não é fruto apenas da propaganda da direita ou da imprensa, mas uma construção que a própria sociedade brasileira reconhece — e que a militância petista insiste em ignorar. "Lula é mais astuto do que se imagina, mas a sua imagem de caráter duvidoso não é invenção da mídia. É uma percepção real que a própria sociedade construiu ao longo do tempo", afirmou o sociólogo, que via no líder sindical uma combinação de esperteza política e ausência de princípios firmes.

"Lula é percebido como mais astuto do que se imagina, mas a sua imagem de caráter duvidoso é uma construção da sociedade. Ele é um oportunista sem caráter, e a discussão sobre sua liderança é complexa e histórica."

Para entender a crítica de Chico de Oliveira, é preciso revisitar sua trajetória. Ele foi um dos intelectuais mais brilhantes da esquerda brasileira, professor da USP, autor de obras fundamentais como "A Economia Brasileira: Crítica à Razão Dualista" e "Crítica à Razão Nacionalista". Participou ativamente da fundação do PT em 1980, ao lado de Lula, José Dirceu, Paulo Freire e outros. No entanto, já nos anos 1990, começou a se distanciar do partido, criticando o que via como burocratização, abandono das bases e pragmatismo excessivo.

O rompimento definitivo veio com o governo Lula (2003-2010). Chico de Oliveira via no "lulismo" uma traição às origens do PT. Para ele, Lula abandonou a luta de classes e o projeto socialista em troca de alianças espúrias com o centro-direita, mantendo a política econômica herdada de Fernando Henrique Cardoso e aprofundando o que chamou de "hegemonia às avessas" — um termo que cunhou para descrever como o governo petista incorporou setores populares sem desafiar o capitalismo. "O lulismo é a conciliação de classes levada ao extremo. Lula governa para os pobres sem incomodar os ricos", ironizava.

O sociólogo também questionava a narrativa de que a luta pela democracia no Brasil foi liderada pelos sindicalistas e pelo PT. Para ele, a redemocratização foi um processo impulsionado pela sociedade como um todo — artistas, intelectuais, estudantes, profissionais liberais e movimentos populares —, e não apenas pelos líderes sindicais. "Os sindicalistas foram levados a se alinhar à esquerda, mas a luta pela democracia foi muito mais ampla. A sociedade brasileira é que impulsionou a redemocratização, não apenas o PT", afirmou, contrariando a narrativa oficial do partido.

"Os sindicalistas foram levados a se alinhar à esquerda, mas a luta pela democracia no Brasil foi impulsionada pela sociedade, não apenas por eles. A confusão entre classes operárias e elite política marcou a ascensão de Lula."

As críticas de Chico de Oliveira a Lula e ao PT não são um caso isolado. Outros intelectuais de esquerda como o filósofo José Arthur Giannotti, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos e o historiador Luiz Felipe de Alencastro também fizeram duras críticas ao petismo ao longo dos anos. O que torna a crítica de Chico de Oliveira particularmente incômoda para a militância é que ela não vem da direita, mas de alguém que dedicou a vida à causa da esquerda e testemunhou o que considera uma degradação moral e política do partido que ajudou a fundar. Para Chico, a trajetória de Lula simboliza o esvaziamento do projeto transformador do PT em troca de poder e pragmatismo — uma crítica que, vinda de dentro, não pode ser desqualificada como "ataque da direita".