O governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), afirmou em entrevista à CNN que procurará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva caso ele seja reeleito, para negociar a renegociação da dívida do estado. A declaração acontece no segundo turno presidencial: Cleitinho formalizou apoio a Flávio Bolsonaro (PL), mas deixou claro que, se a população optar por Lula, ele buscará diálogo em Brasília para tratar do passivo mineiro.

O recado mistura pragmatismo e pressão política. Cleitinho lembrou de um compromisso público de Flávio Bolsonaro, registrado em vídeo, no qual o candidato do PL se comprometeu a renegociar a dívida e a destinar parte das parcelas pagas pela União para investimentos em segurança e infraestrutura em Minas. O governador eleito, porém, disse que o apoio eleitoral não dependeu daquela contrapartida — e que, independentemente do resultado, tentará reverter vetos e recuperar mecanismos do Propag para favorecer o estado.

O Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) foi transformado na Lei Complementar 212, sancionada em janeiro de 2025, mas com trechos vetados pela Presidência — entre eles, dispositivos que permitiam abater parte da dívida executando despesas federais. Minas formalizou adesão ao programa em 31 de dezembro de 2025. No acordo, o saldo confessado foi de R$ 179,3 bilhões, refinanciado em 360 meses com correção pelo IPCA e juros reais de 0%. O estado ofereceu R$ 35,8 bilhões em ativos à União — cerca de 20% da dívida — e o governo federal tem até o fim de 2026 para decidir sobre a federalização desses bens.

Do ponto de vista político, a posição de Cleitinho acende alerta sobre a fragilidade das fronteiras ideológicas em disputas federais quando há interesses fiscais estaduais em jogo. A promessa de procurar Lula mesmo mantendo apoio a Flávio expõe contradição na campanha e complica a narrativa de coerência dos aliados, ao mesmo tempo em que pressiona Brasília a acelerar decisões sobre a federalização de ativos e a implementação dos mecanismos do Propag. Para o eleitor mineiro, trata-se de uma tentativa de traduzir recursos federais em benefícios locais — e para o governo federal, significa mais um sinal de que a resolução da pauta da dívida terá custo político independente de cor partidária.