A coalizão Vida em Conta, que reúne cerca de 140 economistas e 70 organizações da sociedade civil, formalizou um pacote de 10 propostas destinado aos candidatos à Presidência. O objetivo declarado é colocar a redução das desigualdades e a melhoria da qualidade de vida no centro das decisões econômicas do próximo ciclo de governo, transformando diretrizes amplas em compromissos concretos para planejamento, orçamento e avaliação de políticas públicas.

Entre os pontos centrais estão a institucionalização de metas e indicadores de desigualdade por renda, riqueza, gênero, raça e território; a criação de um Fundo Nacional de Mobilidade Urbana para viabilizar progressivamente a Tarifa Zero; e uma política nacional de cuidados que amplia creches, centros-dia e ensino em tempo integral, ao mesmo tempo em que valoriza profissionais do setor. O texto também propõe a regulamentação da nova jornada de trabalho para encerrar a escala 6x1 sem perda salarial e sem brechas que comprometem o ganho em tempo de descanso.

Do ponto de vista fiscal e industrial, o documento defende aumento da alíquota mínima efetiva do Imposto de Renda sobre os muito ricos, combate à evasão e revisão de privilégios e regimes especiais, além de uma revisão sistemática de subsídios condicionada à transição de baixo carbono. As medidas de financiamento sugeridas incluem adaptações ao vale-transporte — com contribuição patrimonial vinculada à folha para custear a gratuidade — e a vinculação de incentivos a metas verificáveis de emprego e contrapartidas socioambientais.

Politicamente, as propostas cruzam uma linha sensível: acendem alerta para candidatos que se definem pela disciplina fiscal, ao mesmo tempo em que ampliam pressão sobre alternativas que prometem expansão de serviços sem explicar o custo. Ao entregar o pacote às campanhas, a coalizão busca transformar demandas técnicas em temas de debate público, forçando posicionamentos claros sobre tributação dos super-ricos, prioridades de gasto e como conciliar investimento social com metas de responsabilidade fiscal.

A força do documento depende agora da capacidade de convertê‑lo em propostas custeadas e factíveis. Para as campanhas, ignorar o pacote pode custar espaço eleitoral em setores urbanos e entre eleitores preocupados com custo de vida e mobilidade; adotá‑lo sem detalhar fontes e impactos fiscais pode abrir flancos para críticas de incoerência. Em suma, a iniciativa tende a entrar no roteiro da campanha e a testar a seriedade dos compromissos apresentados para 2026.