A coligação 'Brasil Pronto pra Mais' — formada pela Federação Brasil da Esperança, PSB, PDT e Federação PSOL/Rede — formalizou neste sábado um conjunto de representações e um relatório técnico para organismos internacionais e autoridades brasileiras. Segundo o documento, encaminhado ao relator especial da ONU para Liberdade de Opinião e Expressão, Leopoldo Maldonado Gutiérrez, além de notícia de fato ao procurador-geral eleitoral, Paulo Gustavo Gonet Branco, e à Polícia Federal, há indícios de tratamento desigual na distribuição de conteúdos políticos nas plataformas da Meta (Instagram, Facebook e WhatsApp). O grupo solicita que o relator da ONU acompanhe o caso e que as autoridades nacionais apurem os fatos.
O relatório reúne dados sobre o desempenho de vídeos curtos entre 1º de setembro e 14 de outubro. No período, o perfil atribuído a Flávio Bolsonaro (14,2 milhões de seguidores) teria obtido média de 6,68 milhões de visualizações por vídeo, enquanto o perfil do presidente Lula (17,4 milhões de seguidores) alcançou média de 4,81 milhões — uma diferença de 39% a favor do senador, segundo a coligação, que estima um excedente de 348,5 milhões de visualizações. A própria peça técnica apresenta uma referência bruta para esse alcance adicional, convertendo-o hipoteticamente em cerca de R$ 7,44 milhões com base em preços de impulsionamento usados pela campanha de Lula; a coligação ressalta que esse cálculo é apenas indicativo e não prova pagamento pela Meta.
Além das métricas de alcance, o documento descreve episódios em que sistemas de busca e recomendação teriam favorecido o perfil de Flávio em detrimento do de Lula — incluindo situações em que o nome do presidente não aparecia em buscas exatas no Instagram, enquanto Flávio era sugerido. No WhatsApp, a coligação registra que a busca por um canal suspenso chamado 'Exército do Lula' passou a sugerir o canal 'Tropa do Flávio'. O relatório também cita mensagens internas da Meta divulgadas pela imprensa e aponta um episódio envolvendo a ferramenta Meta AI: em 14 de outubro, a tecnologia teria gerado uma peça com as inscrições 'FLÁVIO 22' e 'VOTE 22!', recusando pedidos semelhantes que mencionavam Lula, segundo a coligação — comportamento que, diz o documento, persistiu mesmo após a empresa afirmar ter corrigido o problema.
Do ponto de vista jurídico e político, a movimentação da coligação acende alerta sobre transparência e igualdade de condições na disputa eleitoral. Se confirmados direcionamentos automatizados das plataformas que favoreçam um candidato, resta aberta a investigação sobre possível vantagem econômica não registrada na prestação de contas e eventual enquadramento no artigo 350 do Código Eleitoral, como a própria representação sugere. Politicamente, a estratégia de levar o caso à ONU e às autoridades nacionais amplia a pressão sobre a Meta e sobre a campanha de Flávio Bolsonaro, obrigando uma resposta técnica e jurídica que pode repercutir na agenda regulatória das plataformas e na percepção pública sobre integridade do processo eleitoral. Cabe agora a PGE, à Polícia Federal (e eventualmente ao TSE) examinar logs, critérios de recomendação, registros de impulsionamento e qualquer correlação entre alcance e recursos, para transformar indícios em provas ou afastar as suspeitas.