A Câmara dos Deputados instalou nesta quarta-feira a comissão especial que vai analisar propostas para reduzir a jornada de trabalho — incluindo o debate sobre a escala 6x1. No início dos trabalhos, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) criticou o modelo atual, afirmando que a escala compromete a dignidade dos trabalhadores e tem efeito especialmente duradouro sobre quem acumula tarefas domésticas e profissionais.
O colegiado, presidido por Alencar Santana (PT-SP) com relatoria confiada a Léo Prates (Republicanos-BA), adotou cronograma ambicioso: segundo apurações, a tramitação deve ocorrer em ritmo acelerado, com duas ou três reuniões semanais, o que abre caminho para levar o texto ao plenário já em maio. A comissão pretende ouvir empresários, trabalhadores, especialistas e representantes da sociedade civil para subsidiar a proposta.
Hilton sublinhou a dimensão desigual do tema: para muitas mulheres, a jornada atual soma-se a tarefas domésticas, limitando oportunidades e estruturas de ascensão social. A deputada também defendeu que a redução pode ser concebida sem perda salarial, citando experiências externas em que produção não caiu após ajustes na jornada. Ao mesmo tempo, disse que a mudança deve ser gradual, e que textos em debate tendem a propor inicialmente 40 horas semanais distribuídas em cinco dias, apesar de correntes defenderem 36 horas em quatro dias.
O avanço rápido do projeto coloca no centro do debate os custos e os limites práticos da reforma. Empresários e setores de serviços deverão pressionar por estudos técnicos sobre impacto econômico e produtivo; o Executivo e bancadas de centro-direita precisarão calibrar posicionamentos para evitar desgaste político. Há, portanto, um componente estratégico: se a proposta chegar ao plenário sem consenso técnico, aumenta-se o risco de reação empresarial e de narrativa contrária que pode complicar a aprovação.
Nas próximas semanas, as audiências públicas e o relatório serão decisivos para transformar o discurso em texto viável. A comissão começa a trilhar um caminho de alta carga política: além da avaliação técnica, o resultado terá efeito simbólico sobre direitos trabalhistas e sobre a percepção pública do Parlamento na condução de temas sensíveis ao cotidiano do trabalhador.