A comissão especial da Câmara abre nesta semana uma etapa decisiva da tramitação da proposta que elimina a escala 6x1. Depois de debates que privilegiaram saúde ocupacional e qualidade de vida, a agenda agora entra no terreno sensível dos custos: a série de audiências públicas vai avaliar, com profundidade, o impacto financeiro sobre empresas, cadeias produtivas e setores que operam em regimes contínuos. O tema ganhou interesse político adicional porque o Palácio e aliados veem na aprovação uma bandeira passível de capitalização eleitoral até outubro, o que eleva o risco de choques entre objetivo político e constraints econômicos.
No centro da negociação está a relatoria de Leo Prates (Republicanos-BA), que tem defendido construção por consenso, ouvindo trabalhadores, empregadores, governo e especialistas. A postura indica busca por um texto que avance politicamente na Casa sem incorrer em derrota técnica. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), deu sinal político favorável ao tratar a proposta como uma mudança de grande impacto social, mas condicionou avanço à consideração das particularidades de setores com jornadas contínuas — uma abertura que amplia o escopo de pressão das indústrias por exceções e transições graduais.
O setor produtivo chega organizado à disputa. Federações da indústria e entidades patronais apresentaram estudos técnicos e articulam pedidos de compensações, transição escalonada, desoneração da folha e preservação da negociação coletiva como mecanismo central de adaptação. Representantes do Polo Industrial de Manaus e de outras bases industriais argumentam que uma redução abrupta da jornada, sem ganhos prévios de produtividade ou contrapartidas, imporia custos operacionais imediatos, exigiria contratações emergenciais e poderia prejudicar a competitividade — com efeitos possíveis sobre investimento, preços e informalidade. Esse diagnóstico transforma a pauta social em disputa por regras econômicas e segurança jurídica.
Politicamente, o avanço da PEC não está garantido. A necessidade de acomodar exceções setoriais e mecanismos de transição tende a alongar a tramitação e a testar a capacidade do governo de oferecer compensações reais sem abrir mão de responsabilidades fiscais. Para o relator e para o presidente da Câmara, o desafio será equilibrar o discurso pró-trabalhador com ajustes que evitem impacto sistêmico na produção e na inflação. O resultado das audiências decidirá se a proposta vira um ponto de afirmação política já neste ano ou se se transforma em fonte de desgaste, caso setores críticos se percebam excluídos das salvaguardas necessárias.