A menos de um mês do primeiro turno, representantes de entidades da sociedade civil ouvidas pela imprensa apontam que a escalada da crise político-institucional tem sufocado o debate sobre propostas de governo e os problemas estruturais do país. Conflitos envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal tomaram o noticiário, as redes e as conversas cotidianas, deslocando do centro as discussões sobre desenvolvimento, emprego e políticas públicas.
Líderes de organizações de diversas áreas alertam que a agenda pré-eleitoral foi tomada por temas que a sociedade não escolheu debater. Para dirigentes da Federação Nacional dos Jornalistas e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a atenção concentrada nas repercussões institucionais dificulta que temas como ciência, financiamento estável e políticas de longo prazo cheguem aos programas de governo e à avaliação dos eleitores.
Todos os entrevistados classificam como graves os fatos revelados desde os desdobramentos da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, e defendem a apuração das suspeitas de envolvimento de autoridades com o ex-Banco Master e seu dono. Ao mesmo tempo, destacam que o direito à investigação não deve tornar-se justificativa para o sequestro da pauta eleitoral, que precisa abarcar educação, soberania, ciência e uma estratégia de desenvolvimento econômico coerente.
Entre as prioridades hoje menos visíveis estão demandas concretas da classe trabalhadora — fim da escala 6x1, geração de emprego e renda, regulamentação da negociação coletiva no serviço público (PL 1.893/2026) — e temas estratégicos como a preservação de recursos naturais e a resposta às mudanças climáticas. A conclusão das entidades é que o deslocamento do debate público acende alerta: candidatos e partidos terão de recuperar espaço programático rapidamente para transformar denúncias num escrutínio que não apague propostas e compromissos com o futuro do país.