A análise de Creomar de Souza, CEO da Dharma Political Risk and Strategy e professor na Dom Cabral, coloca em termos claros um problema que ganha contornos públicos: decisões monocráticas e relações internas transformaram ministros do Supremo Tribunal Federal em “seus próprios tribunais”. A constatação, feita em entrevista ao CB.Poder, não é apenas retórica. O episódio em que o ministro André Mendonça tornou público um inquérito com mensagens do dono do Banco Master para Alexandre de Moraes — e a resposta de Moraes com acusações formais contra Mendonça — exemplifica, na avaliação do especialista, uma dinâmica de retaliação e fragmentação que impede a coesão esperada de uma Corte que deveria ser menos permeável às oscilações políticas.

Para Souza, a divisão interna do STF já tem configuração reconhecível: um bloco em torno de Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Cristiano Zanin e outro alinhado com André Mendonça, Nunes Marques e Luiz Fux, com Edson Fachin numa posição sensível e Cármen Lúcia buscando preservar independência. Esse mapa, associado ao uso crescente de decisões monocráticas, amplia a percepção pública de que a Corte age por interesses e alinhamentos individuais, e não como instância colegiada e consolidada — um ponto que, do ponto de vista institucional, acende alerta sobre a qualidade da tomada de decisão e da previsibilidade jurídica.

O aspecto político da crise também foi enfatizado por Souza: a menos de um mês do primeiro turno, episódios como o do Banco Master e a atuação do STF em investigações relevantes (como as fraudes no INSS) afetam a percepção da população. Na leitura do especialista, há perda de legitimidade para uma Corte que, durante momentos de enfrentamento à administração anterior, foi vista por parte da sociedade como pilar de contenção. A reação divergente entre aqueles que passaram a questionar ou a reforçar críticas ao tribunal revela um efeito político direto: a polarização sobre o STF pode influenciar o comportamento do eleitorado e complica a narrativa oficial do governo, que não previa esse rumo na campanha.

Creomar de Souza sugere como saída a retirada de ministros do julgamento de pautas com impacto eleitoral, uma proposta que, admite, enfrenta resistências internas e riscos de retaliação. Além disso, a entrada de atores externos — citada com a menção ao envolvimento do ministro Flávio Dino em movimentações na Polícia Federal — acrescenta camadas ao conflito dentro do Judiciário. A combinação de clivagem interna, decisões monocráticas e repercussão eleitoral não é apenas um problema reputacional: ao ampliar desgaste e levantar dúvidas sobre imparcialidade, a crise no STF passa a ser variável relevante para estabilidade institucional e para o próprio processo eleitoral.